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Urbis Olisiponis Descriptio

Damião de Góis

Editora: André de Burgos

Local de edição: Évora

Ano: 1554

Sob consulta

*Raríssimo

Descrição física:

[24] ff.; 4o (20 cm); Assin: a-c//8

Encadernação de Sangorski and Sutcliffe, Londres, em marroquim verde saffiano, dourado por folhas. Exemplar aparado, com ex-libris do bibliófilo José Mindlín.

 

Descrição

Descrição completa:

URBIS OLISSIPONIS DE || SCRIPTIO PER DAMIA || NVM GOEM [sic] EQVI/ || TEM LVSITNUM, || In qua obiter tractantur nõ nul || la de Indica nauigatione, per || Graecos, et Poenos et Lusita || nos, diuersis tempori/ || bus inculcata. || 1554

181/128 mm, m. tip. 151/85 mm, [24] fls. estando em branco o fl. [1] v, cars. reds., tit. corr., duas caps. floreadas, assinatura a8 – c8 e 28 linhas em cada uma das pp. cheias. Os dizeres do front. estão dentro de um rectângulo de 155/105 mm, formado por 4 tarjas, das quais a superior tem dois escudos das armas reais.
No fl. [2] r-v está a dedicatória de Damião de Góis ao Cardeal Infante Dom Henrique e no fl. [3] r, depois do título: || [peq. ad.] VRBIS OLISIPONIS SITVS, || & fi-gura, Damiano Goe [sic] equite Lusitano || authore ||, começa o texto que não tem nenhuma divisão e acaba na linha 19 do fl. [24] v. Seguem as palavras: ||#EBORAE, APVD ANDREAM || Burgẽsem, typographü illustrissimi prin- || cipis Henrici Infantis Portugalliae+ S+, R+, E+, || Cardinalis, ac apl’ice sedis Legati a latere+ | Permissa est editio a reuerendo patre fra/ || tre Gaspare de Regib’ S+ Theologie do/ || ctore ac hereticeprauitatis [sic] inquisitore+ || Mense octobri+ 1554+

Exemplares:

BN de Lisboa, Res. 4343 P, ex. muito aparado no front. e comprado em 1975 por 35.000$00.
Bibl. do Gabinete de Estudos Olisiponenses (Lisboa, Palácio Galveias), C. 3. 1212, ex, que era de A. Vieira da Silva.
Bibl. da Ajuda, 50-VIII-51 (2), ex. sem front.

Bibl. Dom Manuel II (Vila Viçosa), 186.
BN de Paris, Rés. Oy. 239.
BU de Cambridge, Dd * 4.19 (14) E.
BU de Basileia, Kg. IX. 13 (3).
BU de Erlangen (Alemanha Ocidental).
BU de Friburgo de Brisgóvia (Alemanha
Ocidental).

BU de Heidelberg (Alemanha Ocidental), A 983 (4).
BU de Leide, 351. c. 8, ex. que era de Vóssius e está um pouco estragado.
BN de Madrid, R 27422.
Bibl. do Mosteiro do Escorial, 40. V. 50 (1), ex. estragado.

Bibl. Vallicelliana (Roma), S. Borr. G. II. 149 (3).
Bibl. part. do Brasil, ex. comprado nos livreiros Maggs, de Londres. — O presente exemplar e o único em mãos privadas.
Bibl. James Ford Bell na BU de Minnesota (Minneapolis, EU), ex. adquirido entre 1955 e 1959.

in: Francisco Leite de Faria, Estudos Bibliográficos sobre Damião de Góis e a sua época, Lisboa, 1977

 

Urbis Olisiponis Descriptio

«… a Olisiponis Urbis Descriptio de Damião de Góis, de 1554, obra que é em si o melhor atestado das suas altas qualidades de escritor sensível à expressão das artes e às dinâmicas do desenvolvimento urbanístico, onde Lisboa é quase descrita como o paradigma da cidade-empório europeia do futuro: culta, dinâmica, de grande beleza ribeirinha, aprazível de ares, altiva de figurino, empreendedora de comércio, internacionalizada, fortalecida por uma imagem de ancianidade que se antevia nas fábricas medievais que subsistiam e renascentistas entretanto erguidas no seu perímetro — peças e coisas que o escritor descreve, nas suas próprias palavras, como se de um «pintor de pincel» se tratasse, uma metáfora exacta para se avaliarem os propósitos do texto dedicado ao cardeal D. Henrique…»

in: Vítor Serrão, in: Damião de Góis, Humanista português na europa da Renascimento, Lisboa, 2002, p. 46

Damião de Góis abre a sua Descrição da Cidade de Lisboa com a perspetiva de um eminente humanista europeu, simultaneamente ligado à história e à grandeza dos recentes feitos do seu país, capital do novo mundo — não apenas uma cidade entre outras —, mas o centro irradiador de um império marítimo a ligar o Atlântico, o Índico e o Oriente longínquo.

O próprio título anuncia essa intenção: “in qua obiter tractantur nonnulla de Indica navigatione, per Graecos et Poenos et Lusitanos diversis temporibus inculcata” — “na qual se tratam incidentalmente alguns assuntos sobre a navegação às índias, empreendida em tempos diversos por gregos, fenícios e portugueses”.

Logo no início da obra, Damião de Góis exalta as qualidades geográficas e estratégicas da cidade: “Inter urbes Lusitaniae, Olisiponem, sive Ulixbonam, opportunitate loci, amoenitate caeli, fluminis nobilitate, portus amplitudine ac securitate, ac totius regionis fertilitate, praestare arbitror” — “Entre as cidades de Portugal, julgo que Lisboa, ou Ulixbona, se distingue pela excelência da sua situação, pelo clima ameno, pela nobreza do seu rio, pela amplitude e segurança do seu porto e pela fertilidade de toda a região.” O Tejo, escreve Góis, é não só belo e fértil, mas também o meio pelo qual a cidade se liga ao mundo: “Tagus autem flumen … navibus omnium gentium patet, securus ab omni tempestate” — “O seu estuário, seguro de todas as tempestades, está aberto aos navios de todas as nações.”

Góis introduz a dimensão histórica e simbólica da cidade: a tradição que atribui a fundação de Lisboa a Ulisses (tese defendida por André de Resende), figura que o autor interpreta como prenúncio do espírito aventureiro português. Esta ligação entre mito clássico e império moderno é uma das marcas refinadas do humanismo renascentista e que o nosso Camões viria a materializar, alguns anos mais tarde, na sua obra magistral. O texto prossegue exaltando o renascimento de Lisboa sob D. Manuel I e D. João III: as novas ruas, os palácios e a intensa vida cosmopolita trazida pelos navegadores e mercadores.

Góis descreve com precisão as rotas e regiões do Império Português, integrando passagens-chave:

Sobre Goa, Malaca e o Golfo Pérsico/Ormuz, escreve: “Indicae navis, quae Lusitanis a Goa Malacqueque ad Sinum Persicum et ad Ormuzium pervagantur” — “A nau da Índia, que os lusos conduzem de Goa e Malaca até o Golfo Pérsico e Ormuz.” Aqui, Góis destaca a presença portuguesa no Oriente e a ligação marítima entre Lisboa e estas regiões estratégicas.

Sobre Malaca, afirma: “Malacensis urbs, quae Lusitanis potissimum in Asiae ora” — “A cidade de Malaca, que é dos lusos a principal na costa da Ásia.” Malaca é apresentada como centro estratégico para o comércio português no Sudeste Asiático. Sobre o Brasil, menciona: “Brasiliae terrae, quae Lusitanis nuper inventae” — “As terras do Brasil, que os lusos recentemente descobriram.” Esta referência assinala a expansão territorial e a exploração das riquezas naturais do Novo Mundo.

Estas passagens ilustram a visão de Góis do império português como uma rede global interligada, com Lisboa no centro das operações comerciais e políticas. Não se limitando a descrever lugares; apresenta-os como parte de um projeto maior, de conexão universal entre o Ocidente e o Oriente.

Lisboa surge, assim, como microcosmos do mundo português. O seu porto espelha a vastidão do mundo, o Tejo substitui o Mediterrâneo, e o casario branco das colinas reflete a luz do império. A cidade torna-se, nas palavras do autor, “feliz pelas virtudes dos seus cidadãos e pela graça de Deus”: “Haec est Olisipona, urbs opulentissima, virtutibus civium ac Dei beneficio felix”.

A obra termina com uma nota moral: “In qua nihil magis admirandum quam hominum industria a concordia, quibus tanta imperii amplitudo comparata est” — “Nela nada há mais digno de admiração do que a indústria e a concórdia dos homens, pelas quais se alcançou tão vasta grandeza de império.” O império português, na leitura de Damião de Góis, não é apenas uma empresa militar, mas o fruto do engenho, do trabalho e da harmonia social, símbolo do encontro entre o homem moderno e o mundo, fusão entre o espírito clássico e a fé cristã.

A Urbis Olisiponis Descriptio é, portanto, muito mais do que uma descrição urbana: é uma reflexão sobre o mundo português, sobre a civilização e sobre a expansão marítima. Goa, Malaca e Ormuz/Golfo Pérsico são perspectivados como centros comerciais estratégicos no Oriente, enquanto o Brasil simboliza a expansão Atlântica recente. Em tom de admiração racional, valoriza a virtude, a prudência, a ciência e o trabalho humano — um paralelo intelectual com a epopeia de Camões, em prosa latina e dirigida a leitores europeus eruditos.

Informação adicional

Ano

1554

Autor

Editora

André de Burgos

Local de Edição

Évora

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