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Crónica do Condestável Nuno Álvares Pereira

Desconhecido

Editora: Germão Galharde

Local de edição: Lisboa

Ano: 1554

Sob consulta

Edição raríssima da “Crónica do Condestável Nuno Álvares Pereira”, impressa em 1554 por Germão Galharde. Obra fundamental da historiografia portuguesa, com xilogravuras originais e proveniência histórica excecional.

 

Descrição

Coronica do Conde/ || eſtabre d’ Portugall dom || Nuno alurez Pereyra || principiador da casa de || Bragãça+ Sem mudar || dãtiguidade de ſuas pala || uras nē eſtilo+ E d’ste Cõ/ ||deeſtabre procedē agora || elrey dom Johã terceyro || noſſo senhor: e o Empera || dor: e nos mays dos || reynos de chriſ/ || tãos d’ Europa || os Reys: ou Reynhas ou ãbos.

Acabou ſe de empremir acrónica do condeeſta/ || de Portugal Dõ Nunoalurez Pereyra || na cidade de Lixbõa: a. xxx. dias do mes // d Oytubro no ãno d’ mill e q’nhe’ // e cincoenta e quatro annos // per GermãGalharde // emprimidor.

Proveniência: proprietário anónimo, Sotheby’s, 23 Junho de 1975, lote 131; adquirido por José Mindlin, (1914-2010), António Bonchristiano;

Encadernação de Roger Devauchelle em marroquim vermelho, filetes e nervos dourados a ouro fino, dourado por folhas.

Frontispício xilogravura com portada decorada com motivos florais, no topo, ladeadas por duas águias o escudo com o monograma IHJ; na base o escudo real de Portugal;

(f. 1) No verso do frontispício o retrato de D. Nuno Álvares Pereira vestido de armas.

(f. 2) ESTA HE A FIGVRA DO CONDEESTABRE, AO || NATVRAL, QVANDO ESTAVA EM RELIGI/ || AM, NO CARMO DE LIXBOA, ONDE IAZ.

Gravura que representa o Condestável com hábito de carmelita; por baixo em versos latinos, o epitáfio:

EPITAPHIUM AD IPSIS TVMVLVM,

Ille Comesſtabilis Braganti nominis autor

Nunnus adeſt Dux maximus hic, Monachusq; beatus.

Qui regnum aſseruit viuens, ſortitus in æuum

Cœlum cum ſuperis. Nam poſt numeroſa tropæ,

Reiecit pompas: humiliſq; ex principe factus,

Hoc templum poſuit, coluit, cenſumq; dicauit.

Tradução:

Aqui jaz Nuno, ilustre Condestável, fundador do nome Bragança,

grande Duque e bem‑aventurado monge.

Ele, que em vida defendeu o reino, alcançou para sempre

o Céu entre os bem‑aventurados. Pois, depois de numerosas vitórias,

renunciou às pompas: e, de príncipe, fez‑se humilde.

Erigiu este templo, cuidou dele e consagrou‑lhe os seus bens.

Descrição física : lxvi – [4] ff. (ass. A–G 8, H10, + 4); ill. xilogravura; in-fol.

Referências bibliográficas:

Anselmo 653

Manuel 82

Simões 213

Iberian Books 71314 [2875]

«A crónica do Condestável de Portugal, D. Nuno Alvares Pereira foi impressa pela primeira vez por Germão Galharde em 1526 (ver Anselmo e Proença, Bibliografia das obras impressas em Portugal no século XVI, n.° 576), e novamente estampada pelo mesmo impressor em 1554; entre outros, referem-se a esta edição os seguintes autores: Ribeiro dos Santos (Memória para a História da Tipografia Portuguesa do Século XVI, p. 102),  Inocêncio (Dicionário, vol. II, p. 110), Mattos (Manual bibliográfico Português, p. 160), Salvá (Catalogo, n.° 2898), e Anselmo e Proença (ob. cit. n.° 653) que mencionam os seguintes exemplares: Biblioteca Nacional de Lisboa (2 ex.), Arquivo Nacional, e Stuttgart. A essa lista podemos acrescentar mais três exemplares; o da Hispanic Society of America, um na posse de Messrs. Maggs Bros., e o nosso, que pertenceu a Sua Majestade El-Rei D. Luiz, e que se pode considerar único, visto ser impresso em pergaminho.» In Livros antigos portugueses da biblioteca de sua Majestade Fidelíssima

 

NUN’ ÁLVARES PEREIRA

Que auréola te cerca?

É a espada que, volteando,

Faz que o ar alto perca

Seu azul negro e brando.

 

Mas que espada é que, erguida,

Faz esse halo no céu?

É Excalibur, a ungida,

Que o Rei Artur te deu.

 

Esperança consumada,

Portugal em ser,

Ergue a luz da tua espada

Para a estrada se ver!

 

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934

 

Crónica do Condestável D. Nuno Álvares Pereira

Importância bibliográfica e historiográfica

1. Introdução e enquadramento histórico da Crónica

A Crónica do Condestável de Portugal D. Nuno Álvares Pereira é uma obra seminal da literatura e historiografia portuguesas, cuja composição, aceite pela quase totalidade dos especialistas, se situa no século XV, redigida imediatamente após à sua morte no Convento do Carmo em Lisboa.

O texto narra os feitos militares de D. Nuno durante a Crise de 1383-1385, crucial para a consolidação da Dinastia de Aviz, e acompanha a sua subsequente vida monástica como Frei Nuno de Santa Maria. O valor intrínseco da crónica advém do seu estatuto de texto fundacional, uma vez que é reconhecidamente anterior às crónicas régias de Fernão Lopes. A sua existência e circulação foram cruciais para a solidificação da memória nacional e da imagem apologética do Condestável.

1.1. Contexto e génese da Crónica e a figura de Nuno Álvares Pereira

O texto da Crónica estabelece a narrativa essencial do Condestável como herói militar e figura de santidade (após professar na Ordem dos Carmelitas em 1423, oito anos antes da sua morte em 1431). A sua importância não é meramente histórica, mas profundamente política e genealógica. A relevância política da obra foi deliberadamente realçada pelo impressor no título completo, que identifica D. Nuno como o “principiador da casa q[ue] agora he do duque de Bragãça”. Esta atribuição dinástica foi fundamental no Portugal quinhentista, garantindo a proteção e a perenidade da obra sob o patrocínio de uma das casas nobres mais influentes do reino. A Crónica, portanto, serve de documento de linhagem, essencial para a validação da Casa de Bragança, o que contribuiu significativamente para a sua sobrevivência e reedição.

1.2. A Edição de 1554 no Repertório da Imprensa Portuguesa

A edição de 1554 da Crónica do Condestável é a segunda edição impressa conhecida do texto. A sua importância cronotipográfica é inegável, tendo sido produzida 28 anos após a editio princeps de 1526, também de extrema raridade e da qual se conhecem pouquíssimos exemplares, nem todos completos, nem em bom estado. Ambas as edições foram impressas em Lisboa pelo tipógrafo Germão Galharde, um facto que atesta a continuidade editorial e a confiança na viabilidade comercial do texto ao longo de quase três décadas.

O facto de Galharde ter decidido reeditar a obra em 1554, uma época de crescente humanismo e reforma historiográfica, indica que a narrativa de D. Nuno continuava a suscitar interesse. O texto oferecia uma dupla função: narrativa histórica dos eventos fundacionais do reino e hagiografia do Santo Condestável, mantendo assim a sua relevância face à proliferação de novas obras historiográficas. A decisão de reutilizar o seu próprio texto da primeira edição, utilizando a mesma xilogravura de D. Nuno enquanto cavaleiro, e adicionando uma segunda, de D. Nuno enquanto monge carmelita, demonstra bem que a reedição da Crónica em 1554 representava que a figura do Condestável continuava a suscitar interesse, e que mantinha uma popularidade continuada como figura de referência da identidade nacional.

2. A Produção Tipográfica Quinhentista: Germão Galharde e o Contexto de Lisboa (1554)

2.1. Germão Galharde estabeleceu-se como um importante tipógrafo em Lisboa, e a sua decisão de reeditar a Crónica, mantendo uma estrita fidelidade à sua própria princeps de 1526, é um aspeto central da análise bibliográfica. A edição de 1554 é descrita como um “reflexo, na paginação e na grafia, da anterior”. Esta manutenção do esquema e da ortografia original não foi uma mera opção estética, mas sim um reflexo de afirmação editorial de fidelidade e autoridade textual.

O aviso que Galharde colocou na página de rosto, tanto na edição de 1526 como na de 1554, era enfático: “sem mudar da antiguidade de suas palauras nem stillo”. Numa época em que a fidelidade das fontes e a autenticidade dos textos antigos se tornavam preocupações crescentes entre os eruditos, esta declaração prometia ao leitor a pureza do texto original do século XV. A intervenção editorial de Galharde foi mínima, focando-se apenas na correção de algumas gralhas, o que sublinha a sua abordagem conservadora, visando a limpeza do texto sem o modernizar linguisticamente.

2.2. O Contexto de Censura e Publicação em 1554

A data de publicação, 1554, é fundamental para o enquadramento histórico-legal da obra. Este período estava imerso no clima de vigilância e repressão da Contrarreforma. O estabelecimento da Inquisição (1536) e o subsequente início da censura (com os primeiros livros censurados em 1539) culminaram na publicação do Primeiro Index de livros proibidos em Portugal em 1551.

A publicação da Crónica três anos após a introdução do Index ocorre, portanto, em plena atividade inquisitorial. É particularmente notável que a edição de 1554, de acordo com análises bibliográficas, “não apresenta” sinais visíveis de censura, como expurgos ou a inclusão de um imprimatur modificado. Esta ausência de intervenção demonstra que textos que glorificavam os pilares da identidade nacional e figuras de santidade reconhecida (mesmo antes da canonização formal) eram considerados ideologicamente seguros pela Inquisição e pela Coroa. O conteúdo, que era uma hagiografia militar e uma peça de validação dinástica (devido à menção da Casa de Bragança), transcendeu as preocupações teológicas e políticas do momento, garantindo a sua circulação sem risco imediato de ser confiscado ou proibido. A obra era vista como um documento de fé e patriotismo, crucial para a sociedade portuguesa do século XVI.

3. Descrição formal, título e colação

3.1 A edição de 1554 é um elemento bibliográfico de grande valor, cuja descrição formal se inicia com o seu título completo, que é um manifesto político e genealógico, como já foi referido: “Coronica do Condestabre de purtugal Nuno aluarez Pereyra principiador da casa q[ue] agora he do duque de Bragãça sem mudar da antiguidade de suas palauras nem stillo”. Este título exaustivo define imediatamente o propósito e o alcance da obra.

O dispositivo editorial no rosto da obra, que promete não alterar “a antiguidade de suas palauras nem stillo”, não é uma mera fórmula. Esta é uma afirmação de autoridade textual, prometendo a pureza do texto original do século XV a leitores do século XVI, numa época em que as transcrições e as adaptações eram frequentes. Esta preservação da fidelidade textual e linguística assegura que a edição de 1554 seja uma fonte primária inestimável não só para a história, mas também para a filologia portuguesa, particularmente no estudo da sintaxe e paleografia do período pré-clássico.

3.2 Colação textual com a princeps (1526)

A análise da colação textual confirma a política filológica conservadora de Germão Galharde. A edição de 1554 é um “reflexo” da anterior, mantendo a paginação e a grafia. Os estudos confirmam a preservação de traços sintáticos arcaicos, como a construção sem gerúndio, o que valida o compromisso do impressor com a “antiguidade de suas palavras”. Esta fidelidade linguística garante que a 1554 não seja vista apenas como uma reedição comercial, mas como um testemunho linguístico direto da tradição escrita do século XV.

A comparação das características bibliográficas das duas edições de Germão Galharde reforça o papel da edição de 1554 como garante textual e inovador iconográfico.

4. A Xilogravura: Elemento Distintivo e Iconográfico

Um dos aspetos que distingue materialmente a edição de 1554 é a sua componente iconográfica. A página de título é composta em duas partes, sendo a superior marcada por uma “xilogravura de grande formato” um documento essencial para a iconografia nacional, representa, ainda hoje, a figura do cavaleiro medieval, nela se percebem os valores da coragem, honra, lealdade, justiça e generosidade (esta última reforçada pela xilogravura acrescentada de “D. Nuno em religião”). O uso da xilogravura, que representa o Condestável como santo guerreiro ou monge carmelita, confere à edição de 1554 um valor material e artístico singular. Dado que o texto de 1554 é quase idêntico ao de 1526, a presença de uma nova imagem representa bem o interesse crescente pela figura do Condestável, isto a mais de um século após a sua morte, D. Nuno consolida-se como figura de herói e de santo nacional, “quando ainda imperava forte o espírito cavaleiresco da Idade Média, então quase no fim, no qual se deu tanto apreço aos heróis que, como o nosso, excediam o comum deles e misticamente se envolviam na auréola dos cavaleiros da Távola Redonda.”  Crónica do Condestável, Introdução, António Machado de Faria, Lisboa, 1972

A importância desta imagem sugere que a edição de 1554 foi o veículo que popularizou a iconografia visual canónica de D. Nuno Álvares Pereira na Idade Moderna, antes mesmo da sua beatificação em 1918 e canonização em 2009. A xilogravura é, portanto, um registo crucial na identificação visual do Condestável.

No século XVI, a iconografia do Santo Condestável foi essencial para consolidar a sua imagem como herói nacional e figura de santidade, servindo tanto a devoção popular como a legitimação política e religiosa das dinastias portuguesas. A iconografia ajudou a fixar a figura de Nuno Álvares Pereira como “São Nuno de Santa Maria”, mesmo antes da sua canonização oficial. Representações visuais reforçavam a sua dupla identidade: guerreiro vitorioso e donato carmelita, transmitindo a ideia de que a sua vida unia virtude militar e espiritual

5. Instrumento político e dinástico.

No contexto do século XVI, marcado pela expansão ultramarina e pela afirmação da monarquia portuguesa, a imagem do Condestável serviu como símbolo da fidelidade à coroa e da vitória sobre Castela.

A sua iconografia legitimava a memória da dinastia de Avis, projetando valores de lealdade, coragem e fé, o seu culto foi integrado nas práticas religiosas e a sua imagem difundida em conventos, igrejas e manuscritos, estas imagens já circulavam em ambientes eruditos e religiosos, sendo usadas para reforçar a memória coletiva e a identidade nacional.

A iconografia do Condestável aproximava-o dos modelos de santos guerreiros e cavaleiros das Ordens Militares, muito valorizados na religiosidade pós-medieval

No século XVI, surgem representações que alternam entre o retrato mais “histórico” (com traços fisionómicos descritos por cronistas carmelitas) e o retrato simbólico, em que aparece como cavaleiro armado ou como religioso carmelita.

Esta ambivalência iconográfica reforçava a ideia de que o Condestável era simultaneamente defensor da pátria e servo de Deus. A iconografia condestabriana foi objeto de recolha sistemática por estudiosos como Bernardo Xavier Coutinho, que identificou seis séculos de representações visuais dedicadas ao Santo Condestável.

A iconografia do Santo Condestável no século XVI não foi apenas arte devocional: foi memória política, instrumento religioso e símbolo identitário. Ela consolidou a imagem de Nuno Álvares Pereira como santo guerreiro e patrono da fidelidade à coroa, preparando o terreno para o seu culto oficial nos séculos seguintes, o Galaaz português.

6. A relevância historiográfica e a questão da autoria

6.1. A Crónica como fonte primária e a adaptação por Fernão Lopes

A importância historiográfica da Crónica do Condestável reside no facto de ter servido como matéria-prima para a história oficial. Estudos demonstram que Fernão Lopes, o Cronista-mor, se serviu do texto (acredita-se que terá tido acesso a um manuscrito enquanto Guarda-mor da Torre do Tombo) para a redação de vários capítulos da sua Crónica de D. Fernando e de ambas as partes da Crónica de D. João I.

Este reconhecimento da anterioridade do texto é crucial. Ao ser reeditada em 1554, a obra permitiu que o público quinhentista tivesse acesso à narrativa original de D. Nuno separada da Crónica Régia. O acesso ao texto-fonte (ou ao seu substituto impresso fiel) possibilita, até hoje, a comparação filológica e a identificação precisa de como a narrativa do Condestável foi adaptada, integrada ou potencialmente moldada no projeto monárquico mais vasto de Fernão Lopes. Portanto, a circulação da 1554 assegurou a sobrevivência de um discurso alternativo e fundacional sobre a Restauração e o Condestável.

6.2. O estatuto da crónica na crítica textual moderna

O estatuto da Crónica do Condestável na crítica textual é complexo, pois os académicos trabalham sob a premissa da “inexistência de qualquer manuscrito” conhecido da crónica. Na ausência de um autógrafo ou de cópias manuscritas primitivas, as primeiras edições impressas assumem a condição de testemunhos essenciais.

Em virtude da sua fidelidade textual à princeps de 1526 e da sua aparente melhor disponibilidade e estado de preservação nos acervos históricos (como se infere do seu uso para reprodução), a edição de 1554 ascendeu à condição de testemunho principal para a fixação do texto. A 1554 não é apenas uma reedição; é o pilar da crítica textual. O seu reconhecimento como editio princeps impresso é comprovado pelo uso recorrente dos seus fac-símiles em edições académicas de referência.

Por exemplo, a edição de 1972 da Academia Portuguesa de História (preparada por António Machado de Faria) utilizou fac-símiles do frontispício e páginas de texto da edição de 1554, tal como a edição fac-similada de 2011. A escolha consistente da 1554 para reprodução sugere que, na prática, este exemplar é o mais fidedigno ou o mais bem conservado para a reconstituição do texto e da sua componente material.

6.3. Uma autoria desconhecida

A Chronica do Condestável não pode ter sido composta na época da sua primeira edição conhecida, de 1526, pois Fernão Lopes já a utilizava abundantemente na Crónica de D. João I, onde transcreve passagens inteiras. Sendo certo que o cronista‑mor exerceu funções entre 1434 e 1459, a redação da Corónica tem de ser anterior a esse período, situando‑se, portanto, muito próxima dos acontecimentos narrados. A própria linguagem confirma esta antiguidade: trata‑se de uma prosa despojada, directa, espontânea, sem artifícios retóricos, marcada por uma oralidade viva e por uma simplicidade incompatível com o estilo do século XVI. Um texto com esta frescura narrativa só poderia ter sido escrito por alguém que viveu os factos ou os presenciou de muito perto.

Daqui decorre que o autor terá sido contemporâneo de D. Nuno Álvares Pereira, provavelmente um companheiro de armas, alguém que participou nas campanhas e conhecia de perto o carácter do Condestável. A familiaridade com os episódios militares, com os gestos e decisões do protagonista e com o ambiente moral da época aponta para um membro da hoste, habituado ao quotidiano da guerra e ao convívio com o chefe. O anonimato, longe de ser casual, ajusta‑se ao ethos cavaleiresco medieval: o narrador apaga‑se deliberadamente para que a figura do herói se imponha sem concorrência.

A indicação editorial que acompanha a edição de 1526 — “sem mudar da antiguidade de suas palauras nem stillo” — sugere que Germão Galharde reproduziu fielmente um manuscrito muito antigo, talvez mesmo um exemplar coevo hoje desaparecido. Nada impede que tenha existido uma edição princeps anterior, embora nenhum testemunho tenha sobrevivido. Assim, apesar de 1526 ser a data da edição mais antiga conservada, a composição da Corónica é muito anterior, constituindo o mais antigo monumento da historiografia portuguesa em vernáculo e a fonte primordial para o estudo da vida e feitos de D. Nuno Álvares Pereira.

A discussão moderna sobre a autoria da Corónica do Condestabre tem girado em torno de quatro hipóteses: Fernão Lopes, Gil Aires, um companheiro de armas ou um frade carmelita. A análise interna e externa do texto permite, contudo, afastar sucessivamente cada uma delas. A atribuição a Fernão Lopes, outrora aceite devido às coincidências textuais, foi definitivamente rejeitada por Hernâni Cidade, que demonstrou divergências estilísticas e assinalou que Lopes corrige e censura passagens provenientes da Corónica, algo incompatível com a autoria. Assim, Lopes utilizou a obra, mas não a compôs.

A hipótese de Gil Aires, escrivão da puridade e parente do Condestável, defendida por William James Entwistle, é igualmente insustentável. O texto não revela o rigor documental nem a precisão cronológica que se esperariam de um escrivão, e a única passagem em que surge como personagem pode ser explicada por testemunho directo, relato oral ou interpolação. A ausência de datas fundamentais, incluindo a da morte de Nuno Álvares, torna improvável que o autor tivesse acesso ao cartório da casa.

A possibilidade de um companheiro de armas, embora sedutora, enfraquece‑se quando se examina a falta de profundidade técnica na descrição das batalhas e a omissão de feitos decisivos. Figuras como Martim Afonso de Melo ou João Fernandes Pacheco não se ajustam ao perfil: o primeiro teria produzido obra mais sólida; o segundo nutria rivalidade para com o Condestável. O autor da Corónica não demonstra o conhecimento militar que seria expectável num cavaleiro experiente.

Também a hipótese de um frade carmelita deve ser descartada. Apesar da convivência com o Condestável nos seus anos de vida religiosa, o texto ignora quase por completo essa fase e não revela qualquer utilização do cartório do convento. A ausência de referências à espiritualidade de Nuno Álvares ou a episódios ocorridos no Carmo torna esta hipótese inviável.

Resta, portanto, admitir que o autor foi alguém que acompanhou o Condestável, mas não de muito perto: um membro secundário da hoste, talvez um servidor ou escudeiro, suficientemente próximo para testemunhar acontecimentos, mas sem acesso a documentação estruturada nem capacidade de análise militar aprofundada. A Corónica é obra de um contemporâneo, mas de instrução limitada, que escreve a partir da memória e do testemunho oral, e não de compilação documental. A historiografia actual tende a confirmar este perfil: o autor permanece anónimo, mas a sua voz corresponde à de um observador periférico, não à de um protagonista nem à de um escriba oficial.

7. Identificação e preservação dos exemplares conhecidos da edição de 1554

7.1. A Raridade da impressão quinhentista

A edição de 1554 da Crónica do Condestável é, por inerência cronológica e tipográfica, um objeto bibliográfico de extrema raridade. Os livros portugueses impressos no século XVI, especialmente aqueles de natureza popular, narrativa, ou utilizados intensamente (como crónicas e hagiografias), estão sujeitos a uma alta taxa de perda histórica. O Terramoto de Lisboa de 1755 e a subsequente dispersão de grandes bibliotecas monásticas e nobiliárquicas contribuíram decisivamente para a escassez dos exemplares sobreviventes.

Consequentemente, qualquer edição quinhentista de Germão Galharde é considerada rara no panorama da bibliografia nacional.

7.2. Contagem institucional e número de exemplares

O censo bibliográfico exato para a edição de 1554 é uma tarefa difícil, uma vez que as obras estão dispersas e o seu número total é bastante reduzido. Embora não seja possível determinar um número exato de exemplares que sobreviveram, podemos concluir, com base nos levantamentos mais actualizados, a existência de, pelo menos, sete (?+incompletos) exemplares em coleções institucionais, que servem de base para as reproduções modernas. A Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) é o principal ponto de controlo para a identificação e catalogação de exemplares.

A raridade física dos exemplares originais teve um impacto direto na sua difusão moderna. A escassez impulsionou o uso do fac-símile como método de acesso. A escolha consistente da edição de 1554 para reprodução fac-similada, como se verificou na edição de 1972 da Academia Portuguesa de História e na edição de 2011, é uma poderosa indicação de que o exemplar de 1554 disponível estava num estado de conservação superior, ou mais completo, do que os raríssimos exemplares da princeps de 1526. A 1554 tornou-se, assim, o veículo material preferencial para garantir que o texto fosse preservado e acessível aos estudiosos contemporâneos.

Em conclusão, a edição de 1554 é um daqueles títulos cuja sobrevivência se mede em unidades mínimas. Cada cópia que subsiste representa um testemunho físico de um momento crítico na história da tipografia ibérica e da construção da identidade nacional portuguesa. De acordo com os levantamentos bibliográficos mais recentes, nomeadamente a publicação Iberian Books, são identificados os seguintes exemplares:

— Houghton Library, Cambridge, Mass.

— Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa

— Biblioteca da Ajuda, Lisboa

— Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa

— NY Hispanic Society, Nova Iorque

— Württembergische Landesbibliothek, Stuttgart

— Österreichische Nationalbibliothek, Viena

Podemos adicionar o exemplar (impresso em pergaminho) da coleção de D. Manuel II, hoje na Fundação de Bragança em Vila Viçosa.

NOTA: Não há referência, na obra mencionada, ao estado de conservação dos exemplares. É sabido, no entanto, devido ao valor hagiográfico das gravuras, que alguns dos exemplares as têm em falta.

Em virtude destes fatores, e ao reduzido número de exemplares que sobreviveram, confere a cada cópia um valor histórico e bibliográfico inestimável.

Informação adicional

Autor

Editora

Germão Galharde

Local de Edição

Lisboa

Ano

1554

EnvioAcresce o valor do transporte pelos CTT (de acordo com as tabelas em vigor para o correio registado ou não registado).

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