Conde de Sabugosa
António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, 9.º Conde de Sabugosa, foi uma das figuras mais marcantes da aristocracia portuguesa de finais do século XIX e princípios do século XX, não apenas pela sua posição na corte como Mordomo-mor do Rei D. Carlos I, mas também pela sua vasta e refinada produção literária. Homem de cultura vasta e gosto apurado, destacou-se como cronista, contista e ensaísta, cultivando um estilo elegante, permeado de ironia subtil e erudição discreta. A sua obra, repartida entre a ficção curta, a crítica literária, a crónica histórica e o estudo das tradições cortesãs e populares, revela um espírito nostálgico e profundamente enraizado na herança cultural portuguesa.
A sua estreia literária dá-se com a comédia Minuete, publicada em 1877, à qual se seguem obras como Poemetos (1882), onde a poesia ligeira e de observação se cruza com uma sensibilidade muito oitocentista, e Na guella do leão (1882), já demonstrando o seu talento para a narrativa breve. Em colaboração com o conde de Arnoso, publica De braço dado(1894), um conjunto de contos que atestam o gosto partilhado por uma escrita elegante, voltada para os costumes e a sociedade do seu tempo. Mas é sobretudo com obras como O Paço de Cintra (1903), uma meditação histórica e arqueológica sobre o palácio régio que tanto o fascinava, e Donas de tempos idos (1912), em que recria figuras femininas da história portuguesa com um olhar entre o romântico e o documental, que consolida o seu nome como memorialista subtil e evocador.
Além dessas obras, publicou ainda Embrechados (1907), Gente d’algo (1915), A Rainha D. Leonor (1458–1525) (1921) e Outra rainha (1922), textos em que se sente a influência do gosto oitocentista pela reconstituição histórica, mas também uma sensibilidade moderna, atenta às pequenas grandezas do quotidiano e à humanidade das figuras do passado. A sua morte em 1923 levou à publicação póstuma de Bôbos na côrte, com prefácio de Ayres d’Ornellas, reafirmando a estima que a sociedade literária da época lhe dedicava.
Figura de destaque na vida política e social da monarquia constitucional, o Conde de Sabugosa foi igualmente um dos últimos grandes representantes de uma aristocracia culta e interventiva, que via na escrita um prolongamento da sua ação cívica e do seu papel de guardião de uma memória nacional. Como Mordomo-mor, teve contacto direto com os últimos dias da corte portuguesa, vivendo por dentro o crepúsculo da monarquia. A sua obra, nesse sentido, é também o testemunho melancólico de um mundo que desaparecia, e que ele procurou fixar em palavras com discrição, beleza e uma ironia compassiva.
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