Camilo Castelo Branco
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, nascido em Lisboa, na Rua da Rosa, a 16 de março de 1825 — embora o próprio afirmasse ter nascido em 1826 — e batizado na Igreja dos Mártires, foi um dos escritores mais profícuos e versáteis do segundo Romantismo português. Poeta, panfletário, polemista, prefaciador, crítico, tradutor, romancista, dramaturgo, bibliógrafo e historiador, cultivou praticamente todos os géneros literários, deixando a obra mais vasta e diversificada do século XIX português. No romance, género que mais praticou — publicou cinquenta e quatro romances — escreveu numa zona de fronteira entre o idealismo romântico, já permeado pela influência realista, e a tentativa de dialogar com a estética naturalista, primeiro através de pastiches estilísticos e, mais tarde, numa adesão parcial e reativa a um movimento que, no íntimo, desprezava.
Órfão muito cedo — perdeu a mãe em 1827 e o pai em 1835 — Camilo recordaria mais tarde: “Tinha eu nove anos e era órfão”. Foi viver para Vila Real e Trás‑os‑Montes com a irmã mais velha e uma tia paterna, e depois para Vilarinho da Samardã, onde o padre António José de Azevedo o iniciou nos primeiros estudos. A vida aldeã, as memórias de infância e os episódios que ouviu ou testemunhou tornaram‑se matéria recorrente das suas narrativas, quase sempre marcadas por um forte cunho autobiográfico.
Com apenas dezasseis anos, em 1841, casou com Joaquina Pereira de França, de catorze, com quem teve uma filha, mas abandonou ambas pouco depois; mãe e filha morreriam pouco tempo mais tarde. Em 1843 matriculou‑se na Escola Médica do Porto, sem concluir o curso, e a partir de 1844 iniciou colaboração regular na imprensa portuense, multiplicando pseudónimos e assinaturas criativas enquanto se afirmava como poeta, cronista e prosador. Tentou ingressar em Direito em Coimbra em 1846, sem sucesso, ano em que publicou poemas como Os Pundonores Desagravados, O Juízo Final e O Sonho do Inferno, e, em 1847, o drama Agostinho de Ceuta. Envolveu‑se ainda na turbulência política da época, combatendo ao lado da guerrilha miguelista durante a revolta da Maria da Fonte, o que lhe valeu um breve cargo no Governo Civil de Vila Real, do qual fugiu após publicar cartas polémicas contra o governador.
De regresso ao Porto, revelou‑se um polígrafo de escrita veloz, publicando a narrativa Maria! Não me mates que sou tua Mãe!, miscelâneas, poemas e teatro. Pouco depois iniciou uma relação com Patrícia Emília de Barros, com quem fugiu e viveu maritalmente. Acusados de rapto e desvio de dinheiro, ambos foram presos na Cadeia da Relação do Porto, onde nasceu a filha Bernardina Amélia, em 1848.
Em 1850 regressou a Lisboa e estreou‑se como polemista com o panfleto O Clero e o Sr. Alexandre Herculano, defendendo o amigo. Nesse mesmo período conheceu Ana Augusta Plácido, casada com Manuel Pinheiro Alves, mulher que marcaria profundamente a sua vida e obra. O amor proibido entre ambos, amplamente censurado pela sociedade portuense, levou Camilo a ponderar o sacerdócio — pedido recusado devido à sua vida irregular — e contribuiu para o isolamento literário que enfrentou no Porto. Em 1853 publicou Mistérios de Lisboa, a sua primeira grande obra de fôlego.
A situação agravou‑se quando Ana Plácido deu à luz um filho presumivelmente de Camilo, levando o marido a mover um processo de adultério contra ambos. Em 1860, Camilo e Ana foram novamente presos na Cadeia da Relação. Durante esta segunda reclusão, já escritor consagrado, recebeu a visita do rei D. Pedro V, traduziu autores estrangeiros e escreveu alguns dos seus romances mais célebres, entre eles Amor de Perdição (1861), considerado por Miguel de Unamuno a maior obra romântica da Península Ibérica. As experiências da prisão ficaram registadas em Memórias do Cárcere.
Após a absolvição, a morte de Pinheiro Alves e a herança deixada a Ana, o casal instalou‑se na Quinta de São Miguel de Ceide, em 1864, onde nasceram os filhos Jorge e Nuno. A partir daí, Camilo escreveu com ritmo vertiginoso — por vezes seis romances num só ano — enquanto a sua doença oftálmica se agravava. Em Ceide produziu obras marcantes como Amor de Salvação (1864), A Queda de um Anjo (1866), sátira à vida política portuguesa, e romances históricos como O Judeu (1866) e O Senhor do Paço de Ninães (1867). Na década de 1870 publicou as Novelas do Minho, aproximando‑se da nova escola realista antes mesmo de Eça de Queirós.
As dificuldades financeiras e a loucura progressiva do filho Jorge obrigaram‑no a leiloar a sua biblioteca em 1871. Continuou a publicar intensamente, incluindo traduções adaptadas sem indicação do autor original. Em 1879 envolveu‑se numa nova polémica com o Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros, respondendo às críticas em Os Críticos do Cancioneiro Alegre. Nesse mesmo período publicou Eusébio Macário e A Corja, obras que parodiam o estilo naturalista então em voga. Em Vulcões de Lama (1886) ridicularizou abertamente a escola realista.
Reconhecido tardiamente, recebeu a Ordem da Rosa do imperador D. Pedro II do Brasil e, em 1885, o rei D. Luís concedeu‑lhe o título de Visconde de Correia Botelho. Em 1888 obteve uma pensão vitalícia para o filho Jorge.
A cegueira irreversível, confirmada pelo oftalmologista Edmundo Machado, precipitou o desfecho trágico: a 1 de junho de 1890, Camilo Castelo Branco suicidou‑se com um tiro na fronte, na casa de São Miguel de Ceide. Foi sepultado no cemitério da Lapa, no Porto. Nas Trevas. Sonetos Sentimentais e Humorísticos foi o último livro publicado em vida.
A sua obra, vasta, multifacetada e profundamente marcada pela experiência pessoal, permanece como um dos pilares da literatura portuguesa, testemunho de um génio inquieto que atravessou, reinventou e desafiou as correntes literárias do seu tempo.
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