Descrição
444 pp.; il.; 24 cm
Publicado em 1933, Teatro de Outros Tempos, de Gustavo de Matos Sequeira, é uma evocação vívida e documentada da história do teatro português, com especial incidência na cidade de Lisboa. Mais do que um estudo técnico ou académico, trata-se de uma narrativa em tom memorialista e quase afetivo, que percorre os palcos, os autores, os intérpretes e o próprio público do teatro em Portugal desde os seus primórdios até ao final do século XIX e inícios do século XX. O autor detém-se particularmente nas manifestações cénicas de épocas remotas, resgatando o que chama “o teatro antigo” — desde as farsas e moralidades vicentinas, passando pelo teatro cortesão e conventual dos séculos XVI a XVIII, até aos teatros reais e privados do século XIX, com os seus atores populares, episódios insólitos e encenações curiosas.
A obra está repleta de episódios saborosos, reconstruções pormenorizadas de espetáculos, descrições de casas de teatro hoje desaparecidas e referências a atores e dramaturgos que o tempo quase apagou. Matos Sequeira dedica atenção, por exemplo, ao Teatro da Rua dos Condes, ao da Rua dos Caetanos, ao Teatro da Ajuda e à célebre Ópera do Tejo, destruída pelo terramoto de 1755 pouco depois de inaugurada. Apresenta também cenas do quotidiano teatral oitocentista, como as rivalidades entre companhias, os gostos e vícios do público, as modas cénicas que atravessavam a cidade ou o papel central do teatro na vida social lisboeta.
No fundo, Teatro de Outros Tempos é, à semelhança de outras obras do autor — como Lisboa Desaparecida ou O Carmo e a Trindade —, um exercício de preservação da memória cultural de Lisboa. Combinando erudição, humor e um inconfundível gosto pelo pitoresco, Matos Sequeira revela-se menos um historiador académico do teatro e mais um cronista da vida da cidade e dos seus hábitos. O livro pode ser lido como uma verdadeira viagem no tempo: uma deambulação por camarins e plateias, onde a cultura popular e a alta sociedade se cruzam, e onde o teatro aparece não só como forma artística, mas como espelho dos usos, costumes e inquietações de outras épocas.






