Miguel Leitão de Andrada
«MIGUEL LEITÃO DE ANDRADA, Comendador da Ordem de Christo. Cursou na Universidade de Coimbra a faculdade de Cânones, porém não chegou a formar-se, partindo para a jornada de África com el-rei D. Sebastião.
Aí ficou cativo dos mouros na batalha de Alcacer-Quibir em 4 de Agosto de 1578, conseguindo evadir-se no fim de algum tempo. Seguiu depois as partes de D. Antonio, prior do Grato, pelo que foi perseguido e esteve preso durante muitos, anos; por ordem de Filipe II .
– N . na villa de Pedrogão; bispado de Coimbra, em 1555: e vivia ainda em Lisboa no ano de 1629, contando então 74 de idade.—E.
1771) (C) Miscellanea do sítio de Nossa Senhora da Luz do Pedrógão grande, apparecimento de sua santa imagem, fundação do seu convento, e da see de Lisboa, expurgnação d’ella, perda de elrei Sebastiam. E que seja Nobreza, Senhor, Senhoria, Vassallo delRei, Rico-homem. Infanção, Corte, Cortesia, Mizura, Reverência, e Tirar o chapéu, e prodígios. Com muitas curiosidades e poesias diversas. Lisboa, por Mattheus Pinheiro, 1659. 4.º de xvi (inumeradas) – 635 pág.
— Este título é aberto a buril, e como tal ortografia, aí uma portada gravada pelo artista português João Baptista; além do frontispício Ana obre o retrato do autor, e duas estampas descritivas da batalha de Alcácer.
É a miscelânea um dos livros raros e curiosos que possuímos. Escrito em forma dialogística e contendo ao todo 20 diálogos, a sua linguagem de mistura com algumas vozes antiquadas e outras vulgares, conserva geralmente aquela pureza e propriedade que caracterizam os escritos contemporâneos. No estilo, ainda que pouco castigado e ás vezes duro, não deixa de apresentar de vez em quando formosura, viveza e elegância, qualidades que melhor se distinguiriam se a edição, por mal cuidada e incorrecta, não as desfigurasse e confundisse. Quanto ás peças em verso; que aí aparecem intercaladas na prosa, são tidas por inferiores a esta em merecimento, e alguns críticos as julgam destituídas de gala e suavidade poética. Advirta-se porém, que em o numero nessas peças entram muitas alheias, das quais Leitão foi mero compilador; a cujo respeito pôde ler-se uma nota que em sua defesa e justificação escreveu Antonio Ribeiro dos Santos, a qual se acha transcrita no Jornal da Sociedade dos Amigos das Letras, n.” 4 (Julho 1836), a pag. 98, contra os que pretenderam acusá-lo de querer usurpar para si as obras de outros. Entre essas composições alheias ha algumas que se atribuem ao cantor dos Lusíadas, e andam incluídas nas obras do grande poeta. Tais são, por exemplo, a canção: «Oh pomar venturoso» (Miscellanea, pag. 9) que é com leves variantes a xm de Camões; outra que começa: «Quem com solido intento» (Miscell., pag. 431) cantada como a xiv de Camões; e a outra: «Que é isto? sonho ou vejo a ninfa pura» (Miscell., pag. 435), que é nas respectivas edições a xv. — Também a pag. 377 um soneto: «De quantas graças tinha a natureza» havido pelo cxxxi entre os de Camões, e a pag. 435 outro: «Si gran gloria me vino de mirar-te,» que é o CCLXX, com a diferença de aparecer na Miscellanea traduzido em castelhano, etc, etc.
Ao sr. visconde de Juromenha em sua novíssima edição das Obras de Camões ocorreu mencionar no tomo II a identidade das referidas canções: porém não vejo que diga cousa alguma quanto á dos dois sonetos.
No que nos relata da batalha de Alcácer, Leitão gostou sempre do credito de historiador fidedigno, como testemunha presencial dos sucessos. Contudo o autor da Dedução Cronologia e Analítica, firme e tenaz no propósito de achar na Companhia de Jesus a origem de todos os males e desgraças de Portugal, atribuindo aos seus membros toda a sorte de maquinações e falsidades para levarem por diante os seus tenebrosos projectos, lá foi descobrir não sei-aonde (ao menos assim o affirma na parte 1.ª, divisão vi § 200, isto é, a pag. 105 da edição de 8.°) que a Miscellanea «fora obra mandada estampar pelos jesuítas, com o fim expresso de manterem o povo na persuasão de que D. Sebastião escapara vivo da batalha, fingindo (são palavras suas) uma historia verdadeiramente daquelas, a que o vulgo chama de mouros encantados»!!! Apesar porém d’esta estranha afirmativa, tão destituída de provas, não creio que Leitão haja desmerecido em autoridade no conceito dos que o reputam historiador verídico e sincero dos factos que observara.
A Miscellanea paga-se desde muitos anos por avultado preço. Sei que D. Rodrigo de Sousa Coutinho, depois conde de Linhares, comprara no principio d’este século um exemplar por 8:000 réis. Monsenhor Ferreira Gordo deu por um que possuía 5:760 réis. Outros em tempos mais recentes foram vendidos por 6:400 réis, isto é, quando bem tratados e completos com rosto e estampas, que em alguns costumam faltar. Na livraria que foi de Joaquim Pereira da Costa, existem não menos de dois, a que os respectivos avaliadores puseram no inventario o preço total de 6:000 réis, em verdade bem diminuto, mas que não deve servir de motivo para admiração, á vista de tantas e tão disparatadas irregularidades como a cada passo se notam naquele inventario, em que os peritos tamanha imperícia mostraram! (…)»
in: Silva, Inocêncio Francisco da, Dicionário Bibliográfico Português, Lisboa, Imprensa Nacional, 1858
