Maria Lamas
Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas, conhecida como Maria Lamas, nasceu a 6 de outubro de 1893, em Torres Novas, no distrito de Santarém. A educação que recebeu no Colégio Religioso Jesus, Maria, José marcou profundamente a sua formação intelectual e moral, despertando-lhe cedo o gosto pela leitura, pela escrita e pela observação atenta do mundo que a rodeava. Em 1910 casou-se com Teófilo José Pignolet Ribeiro da Fonseca, acompanhando-o entre 1911 e 1913 numa missão militar em Luanda, experiência que lhe ampliou o olhar sobre desigualdades sociais, diversidade cultural e, sobretudo, sobre a condição das mulheres em contextos adversos. Deste casamento nasceram duas filhas, Maria Emília e Maria Manuela, antes da separação em 1919. Em 1921 voltou a casar, desta vez com o jornalista Alfredo da Cunha Lamas, com quem teve a terceira filha, Maria Cândida.
Ao longo da vida, Maria Lamas afirmou-se como uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa do século XX. Escritora, jornalista, etnógrafa e ativista, construiu uma obra vasta e multifacetada, que abrange literatura infantil, recolha de tradições populares, crónica social e intervenção política. Utilizou diversos pseudónimos — entre eles “Maria Fonseca”, “Serrana d’Ayre” e “Rosa Silvestre” — que lhe permitiram circular em diferentes géneros e publicações numa época em que a presença feminina na imprensa era limitada e frequentemente condicionada. Como jornalista, colaborou com A Joaninha, A Voz, Correio da Manhã, o suplemento Modas e Bordados de O Século — que transformou num espaço de cultura, educação e consciência social — e dirigiu a revista Mulheres, onde promoveu debates sobre educação, trabalho, maternidade e cidadania.
A sua obra maior, porém, é As Mulheres do Meu País, publicada entre 1948 e 1950 em fascículos ilustrados. Este trabalho monumental resulta de uma viagem extensa por Portugal, durante a qual Maria Lamas visitou aldeias, fábricas, escolas, mercados e lares, entrevistando mulheres de todas as idades e condições sociais. O livro combina texto, fotografia e observação direta, revelando com rigor e sensibilidade a realidade feminina num país marcado pela pobreza, pelo analfabetismo e pela repressão do Estado Novo. Longe de ser apenas um levantamento sociológico, As Mulheres do Meu País é um gesto de resistência cultural e política: dá voz às mulheres silenciadas, denuncia desigualdades estruturais e afirma a dignidade e a força do quotidiano feminino. A obra tornou-se um marco incontornável do feminismo português e permanece, ainda hoje, uma das mais importantes fontes históricas sobre a vida das mulheres no século XX.
Politicamente, Maria Lamas foi uma figura ativa e corajosa. Simpatizante do Partido Comunista Português muito antes de se filiar formalmente, participou na Oposição Democrática e envolveu-se em movimentos de solidariedade e resistência ao regime salazarista. Entre 1962 e 1969 viveu exilada em Paris, no Grand Hotel Saint-Michel, no Quartier Latin, onde desenvolveu intensa atividade política, apoiou refugiados portugueses e estabeleceu contactos com intelectuais europeus, entre eles a escritora Marguerite Yourcenar. O exílio reforçou o seu compromisso com a liberdade e com a luta pelos direitos das mulheres, causas que continuou a defender após o seu regresso a Portugal e, mais tarde, após a Revolução de 25 de Abril de 1974, momento em que se filiou oficialmente no PCP.
Maria Lamas morreu em Lisboa a 6 de dezembro de 1983, deixando um legado profundo na literatura, no jornalismo, na etnografia e na luta pelos direitos das mulheres. A sua vida e obra continuam a ser estudadas, celebradas e revisitadas como exemplo de coragem, lucidez e dedicação à justiça social.
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