João Miguel Fernandes Jorge
João Miguel Fernandes Jorge (n. 1943, Bombarral) é poeta, prosador, ensaísta e crítico de arte. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa, exerceu a docência no ensino secundário e foi professor de Estética na Escola de Cinema do Conservatório Nacional. A partir de 1980, passou a dedicar-se exclusivamente à crítica de arte, atividade que desenvolveu paralelamente à sua obra literária.
A sua estreia na poesia deu-se com o livro Sob Sobre Voz (1971), considerado um marco da chamada geração de 70 e associado ao «regresso ao real», em contraste com o formalismo dominante na década anterior. Contudo, esta designação é complexificada pela natureza da sua escrita: inquieta, não referencial, próxima do indizível. Como sublinha Joaquim Manuel Magalhães, leitor atento da sua obra, a poesia de Fernandes Jorge revela-se num constante jogo entre palavra e ausência: “alguns descobriram que dizer barco não é arrastar à palavra um barco ou dizer aos outros que um barco está ali, mas revelar um local onde um barco não está…”.
Este “trabalho silencioso de captação da ausência” atravessa toda a sua obra poética, como exemplificado em Os Dois Crepúsculos (1981) e no poema “Para outro texto”, do volume Vinte e Nove Poemas (1978), onde o autor escreve:
“Não sonho palavra sonho barco.”
Segundo o crítico Fernando Guimarães, a sua poesia configura um processo de microrrealismo, onde a linguagem deixa de ser instrumento de representação para se tornar lugar de conhecimento. As imagens e metáforas surgem esbatidas, substituídas por “sinais” e fragmentos que revelam uma realidade dispersa e fluida, muitas vezes atravessada por referências culturais. A linguagem torna-se assim residual, opaca, resistente a um significado unívoco — num gesto profundamente contemporâneo que questiona os limites da própria expressão poética (A Poesia Portuguesa Contemporânea e o Fim da Modernidade, 1989).
A publicação de Crónica (1977) marca uma inflexão importante no seu percurso, com a adoção de estratégias narrativas baseadas na colagem de textos, memórias, referências históricas e mitológicas, entrelaçadas com matéria subjetiva. Essa dimensão ficcional ganhou novo fôlego com Nem Vencedor Nem Vencido (1988), que inaugura uma série de narrativas curtas entre o conto e o registo memorialístico.
Paralelamente, desenvolve uma intensa atividade ensaística no domínio das artes plásticas e da fotografia, com presença regular na imprensa (A Capital, O Independente, Semanário, Expresso, entre outros) e em revistas da especialidade. Muitos desses textos foram reunidos em volume. Poemas seus encontram-se também dispersos por publicações como O Tempo e o Modo, Colóquio-Letras, Sema, Raiz & Utopia, Europe, etc., e está representado em diversas antologias de poesia contemporânea.
Foi co-diretor da revista As escadas não têm degraus (1988–1991) e é membro da secção portuguesa da AICA – Associação Internacional de Críticos de Arte. Desde 1987, a sua poesia vem sendo reunida em volumes sob o título genérico Obra Poética, refletindo a coerência e amplitude de uma das vozes mais singulares da literatura portuguesa do pós-25 de Abril.
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