Charles Ralph Boxer
Charles Ralph Boxer (1904–2000)
Charles Ralph Boxer permanece como a figura estrangeira que mais profundamente estudou a Expansão portuguesa. Soldado, viajante incansável, professor e bibliófilo apaixonado, a sua vida reúne episódios que parecem retirados de um romance de aventuras. A Fundação Oriente apoia agora a publicação da primeira biografia dedicada ao historiador, resultado de um trabalho de vários anos conduzido pelo académico norte‑americano Dauril Alden, com o contributo próximo de James S. Cummins e Michael Cooper — três estudiosos que mantiveram com Boxer uma relação de amizade e admiração.
Nascido em 1904 na ilha de Wight, Boxer cresceu numa família marcada por tradições militares. O pai, oficial britânico, morreu na Primeira Guerra Mundial, e tanto Charles como o irmão seguiram naturalmente a carreira das armas, passando por Wellington e Sandhurst. A grande viragem da sua vida dá‑se em 1930, quando é destacado para o Japão como oficial‑intérprete. Ali mergulha na disciplina militar nipónica, aproxima‑se do zen e dedica‑se às artes marciais, como o kendo. A partir de 1936, já colocado em Hong Kong, percorre a Ásia, recolhe fontes primárias, compra livros antigos, moedas e objectos históricos, e visita Macau. À fluência em japonês junta rapidamente o português, o holandês, o espanhol, o alemão e o italiano.
Quando a guerra rebenta no Extremo Oriente, Boxer integra os serviços secretos britânicos em Hong Kong. Na invasão japonesa de 1941, é gravemente ferido e feito prisioneiro — um episódio que, décadas mais tarde, seria alvo de especulação na imprensa britânica.
A biografia agora concluída é particularmente valiosa porque Boxer nunca manteve diários nem notas pessoais. O trabalho de Alden e da sua equipa assenta numa recolha exaustiva de correspondência — que o historiador manteve até quase ao fim da vida —, testemunhos de contemporâneos e documentos inéditos. Para Hywel Williams, do The Guardian, Boxer poderá vir a ser reconhecido como o historiador inglês mais influente da segunda metade do século XX.
A vida pessoal do historiador foi também marcada por episódios pouco convencionais. Casou duas vezes, a última com a escritora norte‑americana Mickey Hahn, figura célebre pelo seu feminismo e irreverência, com quem teve duas filhas. Em Macau, cultivou amizade com Monsenhor Manuel Teixeira, que recordava com humor uma resposta de Boxer sobre religião: “Da cabeça para cima sou episcopaliano; da cabeça para baixo, mórmon.”
Após a Segunda Guerra Mundial, abandona a carreira militar e aceita, em 1947, a cátedra Camões no King’s College de Londres, onde permanece até 1967, antes de integrar a Universidade de Yale. A sua relação com o regime salazarista, inicialmente cordial, deteriora‑se com a publicação, em Inglaterra, do estudo Relações Raciais no Império Colonial Português (1415‑1825). A obra desmontava o mito do “não racismo” português, apresentando numerosos exemplos de discriminação e violência ao longo dos séculos coloniais. A crítica irritou profundamente o regime, sobretudo porque surgia pouco depois de Salazar ter afirmado, numa entrevista à revista Life, que o Império português nunca perseguira povos ou credos.
A polémica opôs Boxer a figuras como Armando Cortesão, Silva Rego, Virgínia Rau e Gilberto Freyre. Do lado do historiador britânico ergueram‑se vozes corajosas como Albertino Monteiro Crespo, António Álvaro Dória, Leite de Faria, Avelino Teixeira da Mota, Jack Braga e Joel Serrão. A partir daí, Boxer tornou‑se persona non grata em Portugal; os seus livros foram proibidos e Relações Raciais só seria traduzido depois de 1974.
Apesar das controvérsias, Boxer manteve uma reputação internacional sólida. Era admirado no Vaticano e entre ordens religiosas como os Jesuítas, que reconheciam nele uma autoridade em história oriental. Durante o cativeiro japonês, recusara a Bíblia oferecida pelos guardas, preferindo ler Shakespeare — um gesto que se tornou lendário entre os que o conheceram.
Quando deixou de escrever, em 1984, tinha publicado mais de 350 livros e artigos.
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