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Charles Fourier

Charles Fourier, que no século XIX marcou as letras francesas com um traço vivo e singular, permaneceu durante muito tempo envolto numa indiferença quase total. Como utopista, sofreu o destino habitual dos que ousam poetizar o mundo através da razão — partilhando com os poetas o carácter vital e sagrado da linguagem. Entre os poucos que o pressentiram esteve Victor Hugo, seu contemporâneo, que o dividiu em dois com uma intuição fulgurante: “Em 1811 houve na Academia das Ciências um Fourier célebre que a posteridade esqueceu, e, num sótão qualquer, um Fourier obscuro que os tempos vindouros hão de lembrar.” Stendhal, mais pragmático, observou com ironia que Fourier, vivendo isolado ou rodeado apenas de discípulos incapazes de o contradizer, não percebia que em qualquer aldeia um aventureiro eloquente — um Robert Macaire — acabaria por se colocar à frente da Associação e perverter-lhe as consequências. Referia-se à lei social que Fourier expunha incansavelmente em folhetos, na tentativa de lhe dar forma sistemática através de O Falanstério, jornal que fundou e que, como era previsível, teve vida brevíssima.

Nessa época, a dos falanstérios, Fourier entrava na meia-idade, amargurado pelo passado trágico dos seus negócios — falências sucessivas e tentativas frustradas de aplicar as suas ideias utópicas — mas ainda disposto a apostar tudo naquilo a que chamou Harmonia Universal. Materialmente empobrecido e acusado de loucura desde 1808, quando a sua Teoria dos Quatro Movimentos surgiu anonimamente com indicação falsa de editor, Fourier já era então o “louco” que os poetas viriam a chamar “filósofo”: o apóstolo da liberdade total, o profeta do melhor dos mundos ao alcance de alguns anos de transformação social. O resto da sua vida seria consagrado à luta encarniçada pelos oito milhões de francos necessários para erguer o primeiro falanstério — uma comunidade de 1800 famílias onde as crianças seriam educadas separadamente, já que o conceito burguês de família lhe parecia a raiz de uma instituição anti-social. Morreu em 1837, sem ver concretizado o seu plano.

Para o século XX, Fourier chega menos preso à imagem bizarra de utopista e mais à sua obra literária extensa, insólita e barroca, onde o leitor apressado facilmente se perde. Entre montanhas de dissertações fantásticas e extravagantes, encontram-se páginas de humor extraordinário. O Quadro Analítico da Corneação permaneceu, contudo, à margem desse caudal até à sua publicação póstuma e autónoma, tal como aconteceria com a célebre reedição de 1924. “Menos áspero do que Alphonse Allais — escreveu recentemente Hubert Juin — mas rico de uma vintena de bons achados linguísticos e de uns cinquenta esboços psicológicos cheios de piada.” Fourier hesitava em divulgá-lo, como confessou numa página da Falsa Indústria: “Várias vezes me incitaram a publicar a escala hierárquica da corneação. (…) Recusei, porque isolada das outras escalas do vício passaria por indecência, seria mais chocante do que útil. O que acima de tudo os Civilizados temem é a verdade, e a minha escala dos adultérios tem contra si o defeito de ser verídica. Na cidade em que a estabeleci, conhecia todos os originais, os tipos vivos de cada um dos seus graus e, quando os citava em confidência, todos confessavam a justeza dos retratos e da classificação.”

Mais de um século depois, a corneação multiplicou-se em complexidade e especialização, enriquecendo-se de matizes que Fourier, limitado pela sociedade do seu tempo, não poderia captar. Um livro recente de Camilo José Cela confirma-o: a classificação que propõe — dedicada expressamente a Fourier e devedora da sua imaginação — ultrapassa em 286 casos o plano original do seu inspirador.

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