António Feliciano de Castilho
António Feliciano de Castilho nasceu em Lisboa, em 1800, e tornou‑se uma das figuras mais marcantes da literatura portuguesa do século XIX. A sua infância foi profundamente marcada pela perda da visão, consequência de uma doença que o deixou cego ainda muito jovem. Apesar dessa limitação, Castilho revelou desde cedo uma inteligência invulgar e uma memória prodigiosa, que lhe permitiram prosseguir estudos e desenvolver uma carreira literária notável. Com o apoio da família e de colegas que o ajudavam na leitura, mergulhou nos clássicos e formou uma sensibilidade literária que combinava erudição, musicalidade e um forte sentido estético. A sua obra poética, inicialmente influenciada pelo arcadismo e pelo neoclassicismo, evoluiu para um romantismo próprio, marcado por um tom sentimental, uma linguagem elaborada e um gosto pronunciado pela harmonia verbal.
Castilho destacou‑se também como tradutor, divulgando em Portugal autores como Goethe, Schiller e La Fontaine, e como pedagogo, criando métodos de ensino que procuravam conciliar disciplina e sensibilidade literária. A sua intervenção cultural estendeu‑se ainda ao jornalismo e à crítica, áreas onde exerceu grande influência. No entanto, essa influência não esteve isenta de polémica: o seu papel dominante no meio literário levou ao célebre conflito conhecido como “Questão Coimbrã”, em que jovens escritores ligados ao realismo, como Antero de Quental, contestaram a sua visão conservadora da literatura e da cultura. Este episódio marcou simbolicamente a transição entre o romantismo e as novas correntes literárias que emergiam em Portugal.
Apesar das controvérsias, Castilho manteve ao longo da vida um prestígio significativo e continuou a escrever, traduzir e intervir na vida cultural portuguesa. A sua obra, vasta e diversificada, inclui poesia, prosa, traduções, textos pedagógicos e reflexões críticas, revelando um autor profundamente dedicado à palavra e à formação intelectual. Morreu em 1875, deixando um legado que, embora debatido, permanece fundamental para compreender a evolução da literatura portuguesa oitocentista e o diálogo entre tradição e modernidade que marcou o século XIX.
