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Novidades Filosofia/ Ensaio

Victor Mendanha. Conversas com Agostinho da Silva. Lisboa: Pergaminho, 1998

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123 pp.; il.; 21 cm


Agostinho da Silva, Porto, 1906 - Lisboa, 1994

Filho de Francisco José Agostinho da Silva e de Georgina do Carmo Baptista Rodrigues da Silva, Agostinho da Silva, como viria a ser conhecido nas várias partes do mundo por onde disseminou, generosamente, o seu saber e o seu estímulo, aprendeu a ler aos quatro anos, graças ao desvelo de sua mãe.

A sua pouca aptidão para «trabalhar», como ele próprio dirá em saudável exercício de auto-ironia, torná-lo-á um mau aluno na Escola Industrial Mouzinho da Silveira, na qual o pai o fez matricular-se, com onze anos (1915). Dois anos depois de ali ter entrado, resolve-se mudá-lo para o Liceu Rodrigues de Freitas. Concluindo, em 1924, o curso geral dos liceus com 20 valores, logo ingressa, após ter renunciado à sua «vocação de juventude, que era a de ser marinheiro», na Faculdade de Letras do Porto, a que presidia a figura carismática de Leonardo Coimbra. Desta peculiar instituição de ensino dirá Agostinho da Silva, mais tarde, que nela se formou «não apenas em filologia clássica mas também em algo de mais importante [...], em liberdade.»

Obtida, com 20 valores, a licenciatura, coincide esta com a decisão governamental (1928) de fechar aquele centro de estudos. Agostinho da Silva, numa entrevista dada a Joaquim Furtado, em 1984 e 1985, comentará esta decisão do governo, com estas palavras: «O governo não gostava dela [da Faculdade de Letras do Porto] e fechou-a. Não gostava porque era uma Faculdade sem uma organização rígida e em que se dava muito mais atenção a quem elaborava perguntas do que a quem fornecia as respostas que vinham nos manuais...»

Agostinho da Silva, um dos espíritos mais livres e rebeldes de que há notícia na nossa história cultural, insurgir-se-á imediatamente, não só contra o encerramento da Faculdade, mas, com igual vigor, contra outro decreto obscurantista que, pela mesma altura, impõe de novo a separação dos sexos nas escolas, nas localidades em que exista mais de uma escola. Todavia, lutador intemerato, Agostinho da Silva não se deixa, como jamais se deixará, abater: «Obstáculo», dirá em 1975, noutra entrevista, «foi coisa que jamais me importou; procurei sempre seguir nisto a lição dos rios: tiram a extensão e variedade do seu curso daquilo que se lhes opõe.»

De aqui em diante a sua vida mostrará uma grande mobilidade: colabora na Seara Nova, parte para Lisboa (1930), onde está até 1932, ano em que parte para Paris com uma bolsa de estudos, regressa a Portugal, onde é colocado como professor do liceu em Aveiro, sendo demitido do ensino público em 1935 por não ter querido assinar uma declaração em como não pertencia a nenhuma sociedade secreta. Em 1936 fixa-se em Madrid, regressando no ano seguinte a Portugal. Em 1939 inicia a publicação dos utilíssimos cadernos Iniciação, a que se seguem os não menos interessantes pertencentes às séries Antologia e Volta ao Mundo.

Em 1944 parte para o Brasil, visita a Argentina em 1947, regressando no ano seguinte ao país de Machado de Assis. Aqui desempenhará os mais variados cargos e dará início a várias acções que atestam a sua marca inconfundível: depois de trabalhar para o Instituto de Biologia de Oswaldo Cruz (1954), funda, com um grupo de professores, a Universidade Federal de Paraíba, é nomeado director (1955) dos Serviços Pedagógicos da Exposição Histórica do IV Centenário da Cidade de São Paulo, é nomeado Director de Cultura do Estado de Santa Catarina (1956), naturaliza-se cidadão brasileiro (1958) e faz parte da Comissão Instaladora da Universidade de Brasília, funda (1959) o Centro de Estudos Africanos e Orientais da Universidade Federal da Baía, é nomeado (1961) assessor de política cultural externa do Presidente Jânio Quadros, visita o Japão, Macau e Timor (1963), funda no Japão um Centro de Estudos Luso-Brasileiros (1964), etc., etc.

Em 1969 é autorizado a regressar a Portugal, onde permanece até ao seu falecimento, em Lisboa, em 3 de Abril de 1994. Depois do seu regresso a Portugal, através de múltiplas intervenções (cartas, artigos, entrevistas, colóquios, etc.) Agostinho da Silva torna-se uma das figuras mais carismáticas da nossa cultura, venerado carinhosamente por muitos, troçado por outros e liminarmente «demitido» por tantos outros, como uma espécie de louco inofensivo. De louco e de inofensivo, Agostinho da Silva nada tinha: era, antes, um homem cheio de bom senso terráqueo, um fazedor e estimulador de projectos que quase sempre levava a bom fim, um homem de vasta cultura que sabia transmitir, com eficácia e poesia, mesmo que gostando de exibir uma apetência imoderada pelo paradoxo.

A série de Vidas de que ele próprio foi autor, editor e distribuidor (vidas de Francisco de Assis, Washington, Robert Owen, Miguel Ângelo, Pasteur, Franklin, Zola, Lincoln, Lamenais, Leopardi, Pestalozzi) constituiu uma autêntica escola de iniciação para tantos portugueses que nelas tiveram acesso à poesia, à política, à ciência, à arte, em textos a um tempo simples, ricos e aliciantes.

Depois de uma vida cheia de mudanças e surpresas, de acções diversas e estimulantes onde de tudo se cuidava menos de segurança pessoal, Agostinho da Silva pôde declarar sem receio de ser desmentido: «Pelo menos, há uma coisa para mim insuportável: a rotina.» Imaginativo, inventivo, Agostinho da Silva soube sempre tirar máximo recurso dos poucos meios com que se lançava às obras, lembrando o provérbio brasileiro: «quem não tem cão, caça com gato.» E deixou, sobre o caso português, um diagnóstico implacável e verídico: «Uma das desgraças de Portugal é que foi sempre governado pelo vedor da Fazenda, quando este deveria ser o simples caixa de uma empresa a dirigir pelo Ministério da Cultura.»

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997


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