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Novidades Lusitanidade/Saudosismo

Teixeira de Pascoaes, Jesus e Pan, José Figueirinhas Junior, Porto, 1903 (1ª e única edição)

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Exemplar brochado. Em muito bom estado de conservação.

Escasso.

Uma das obras de referência de Pascoaes.

«Teixeira de Pascoais e Miguel de Unamuno no seu epistolário 

A sua original peculiaridade logo ressalta do teor das imagens e das metáforas e mais se destaca quando se compara aos mundos poéticos de alguns coetâneos, notadamente de Antero de Quental, de Eugénio de Castro e de Fernando Pessoa.

O mundo poético de Antero é, por excelência, o mundo dos problemas especificamente humanos, das lutas pelo direito e pela justiça, dos destinos últimos da consciência moral, das dúvidas metafísicas; o de Eugénio de Castro, no polo oposto, é o mundo construído e expresso somente com dados sensoriais, sob o compasso do bom senso — donde uma poesia de lavrante, alheia à problemática humana mas rica de tonalidades pictóricas, de ritmo musical, de modelação plástica; e o de Fernando Pessoa, um mundo solipsista, de quem somente se reconhecia no próprio eu e no complexo subtil dos estados e das relações subjetivas de que se apercebia. Diverso destes mundos poéticos, não o era menos do universo poético-filosófico de Unamuno, enlaçado por intuições “agónicas” da existência vivente. No íntimo, o mundo poético de Pascoais era um mundo refletido, estante e não deviente, no qual toda a concretização e toda a fenomenologia sensível lhe apareciam como “sombras” da realidade autêntica, muda, silenciosa, imóbil. Daqui, a sensação genésica de um mundo, do qual o seu espírito era a um tempo criador e adão, e uma poesia mundificante e não humanizante, essencialista, e não presencista nem futurante, tanto mais que a sua sensibilidade não apreendia o tempo como mudança e alteração, mas como lugar-onde do ontem, do hoje e do amanhã: “Estamos em contato com todos os séculos e lugares”, escreveu no São Jerónimo e a Trovoada. “O espaço e o tempo principiam e findam no meu ser. Em volta de mim, há a mesma extensão de passado e futuro, onde a minha fantasia, esse magnetismo, se propaga, recebendo mil impressões, que se iluminam e revelam à minha consciência”.

No plano das ideias e conceções dos dois correspondentes, este epistolário não alcança a importância que se poderia esperar. Unamuno refere-se, por exemplo, à raiz da sua conceção do D. Quixote, em termos que precisam, mas não enriquecem, as páginas da Vida de D. Quijote y Sancho, e Pascoais, apesar de haver acentuado a conceção da “síntese de Jesus e Pan, como revelação do genuíno, mas nunca lembrado sentimento religioso da raça lusitana” e de se referir ao Maranus como sendo “um romance em verso”, no qual julgava “ter revelado o que é a tristeza portuguesa”, não deu ao tema da saudade o relevo e a amplitude que o leitor atual esperaria. Qualquer que seja a explicação do facto — tentá-la levaria longe —, o pouco que da saudade disse nas cartas a Unamuno indica que Pascoais a reportava à “tristeza”, dando-lhe, portanto, raiz afetiva e não ontológica, e comprova que considerou o “saudosismo” como credo político, de humanização e de reencontro da alma portuguesa consigo própria, a ponto de o ter levado à “vida ativa” e “a pregar a saudade por terras do país”.

Pascoais aparece, assim, nas últimas cartas, como vate, que é a um tempo poeta e profeta, e se pouco esclarece acerca da estrutura e teor do novo curso do seu espírito, diz o suficiente para abrir a perspetiva das sondagens, no termo das quais, ao poeta que havia sido, revelador de um mundo imaterial e fantasmático, virá juntar-se o poeta prefigurador de uma metafísica da existência, cósmica e humana.

Introduzindo com alguma acessibilidade na individualidade própria dos dois amigos, este epistolário mal sugere o que a recíproca leitura dos escritos de um e de outro pode ter despertado na atividade literária e reflexiva de cada um.

Limitando o tema, jamais tentado, às vagas sugerências do epistolário, pode pensar-se que “a síntese de Jesus e Pan”, na qual Pascoais, em 1908, encontrava a “revelação do genuíno, mas nunca lembrado, sentimento religioso da raça lusitana”, não foi inteiramente alheia à “ressurreição e transfiguração de D. Quixote” operadas por Unamuno, cuja conceção do quixotismo, aliás, solicita o confronto com o poema “Maranus, a Saudade e Dom Quixote”, do Maranus. Em Unamuno, o vinco das conceções de Pascoais não é, porventura, tão sensível, mas pode pensar-se que o “saudosismo”, enquanto síntese da lembrança e do desejo, da recordação e da esperança, foi uma das raízes das reflexões do autor do Sentimento Trágico da Vida acerca da esperança, como sugere este passo de franco alor pascoisiano: “(...) me acuerdo de la finca de Pascoais y su ventana; me acuerdo del Tamega; me acuerdo Acordar-se es vivir. De las esperanzas de recuerdos pasamos a los recuerdos de esperanzas” (carta XVIII).

Qualquer que seja o significado real destas meras aproximações, cujo alcance não é esta a hora de aprofundar e de dilatar, bem como o das reflexões sobre a individualidade própria dos dois correspondentes, sempre este epistolário há de valer como testemunho vivo da amizade intelectual de duas personalidades inconfundíveis e separadas por fronteiras irredutíveis de modos de ser e de séculos de história, e que, sem embargo de haverem repensado e de terem dado novo alento aos sentimentos nacionais em que se criaram, encontraram na compreensão do espirito ibérico razões para mais se estimarem e melhor se conhecerem.

Figueira da Foz, Setembro de 1957, Joaquim de Carvalho»

Teixeira de Pascoaes, pseudónimo literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, (Amarante, 8 de novembro de 1877 — Amarante, Gatão, 14 de dezembro de 1952) foi um poeta e escritor português, principal representante do Saudosismo.

«Teixeira de Pascoaes produziu a partir da experiência existencial da saudade - presente de forma vaga e imprecisa nos seus primeiros textos em verso - uma reflexão, a que subjaz o princípio fundamental de que o ser manifesta uma condição saudosa. Do Ser ao ser, processa-se uma verdadeira queda ontológica, uma cisão existencial, manifestando o mundo, na sua condição decaída, um "pathos universal". Da condição saudosa de ser resulta pois uma condição dolorosa do mesmo ser. Dor de privação, dor de saudade, consciência da finitude, de imperfeição, de insuficiência ôntica.

A experiência da dor pelo homem saudoso, é simultaneamente individual e universal. Por ela o homem–poeta entende o mundo como "uma eterna recordação", percebendo a realidade como evocadora de uma outra realidade mais real que aquela.

A condição dramática da existência manifesta-se assim numa permanente tensão entre Ser e existir. O homem existe num primeiro nível de dignidade ontológica, partilhando pelo corpo o mundo da matéria, e vive pelo espírito. A vida é pois uma eterna aspiração à ultrapassagem da realidade material. A alienação é a situação que resulta da impossibilidade de o homem ser, verdadeiramente. Dividido entre assumir-se como puro espírito ou pura matéria, o homem não é nem pode ser verdadeiramente, oscilando eternamente entre uma e outra condição.

A saudade pascoaesiana transcende assim o mero sentimento individual, para assumir uma dimensão ontológica e metafísica. Na mesma medida em que todo o Universo "é a expressão cósmica da saudade" enquanto " infinita lembrança da esperança", a saudade psicológica, individual, assume, enquanto o homem partilha a condição do mundo, uma dimensão metafísica. Enquanto o homem como ser finito e imperfeito aspira à perfeição de ser, a saudade assume uma dimensão ontológica.

A saudade encarada do ponto de vista existencial leva o autor a conceber a natureza como sagrada, uma vez que a saudade do mundo é também saudade de Deus, de um Deus presente nas próprias coisas. É a divindade que se apropria de si mesma na evolução da natureza, pelo que Pascoaes postula a sacralização da mesma natureza. Deus existe antes e independentemente do homem; no entanto a vida, confere-lha o próprio homem.

O pensamento de Teixeira de Pascoaes manifesta assim, uma particular forma de religiosidade, que provém desde logo desta presença de Deus na natureza e da sua evidenciação nela. O autor concebe uma ordem na natureza, um princípio teleológico alheio ao acaso que deixa supor uma inteligência ordenadora que presida às transformações da realidade. Todo o esforço humano será para penetrar o Mistério da vida e do cosmos.

Deveremos referir ainda, que Pascoaes manifesta uma evidente preocupação com a natureza das relações do homem com a paisagem que o envolve, podendo mesmo considerar-se que há profundas preocupações ecológicas na sua obra. A sacralização da natureza de que falamos, determina uma relação de profundo respeito do homem pela paisagem e o cuidado com a sua preservação. Perpassa na sua obra um desencanto com o progresso que deveremos no entanto contextualizar. Trata-se da recusa de um progresso descaracterizador da natureza.

Sensivelmente de 1910 a 1919, Teixeira de Pascoaes teoriza o saudosismo, pensamento que desenvolve no âmbito do movimento da "Renascença portuguesa", de cujo órgão oficial, "A Águia," foi director. O saudosismo acaba por designar o movimento de cunho lusitanista estruturado em torno à questão da saudade portuguesa .Particularmente influenciado pelo momento político que se vivia em Portugal com o advento da República, e condicionado ainda, pela persistente crise que afectava a sociedade e a cultura nacionais, o pensador de Amarante desenvolve uma particular atenção às características particulares diferenciadoras do "génio lusitano", considerando a necessidade de preservar a identidade nacional, pela promoção do encontro de Portugal com a suas próprias raízes. O génio português encontra a sua síntese na saudade lusíada, que, não obstante ser um sentimento cósmico encontra num povo caracteristicamente saudosista a sua expressão mais apurada. Apenas a palavra portuguesa,"saudade", permite revelar algo da sua natureza essencialmente misteriosa, pelo que o autor parece esquecer o conceito universalista de saudade, para evidenciar o seu carácter intraduzível, e conceber mesmo uma teoria ortográfica cujo axioma fundamental determinava a necessidade de fazer corresponder a ortografia das palavras ao seu perfil psicológico. Para o autor "as palavras são seres" e nessa circunstância possuem um perfil físico e outro psicológico, que deverão estar em harmonia ao apresentar-se na sua forma gráfica.

O saudosismo manifesta ainda um caracter messiânico e profético aceitando Pascoaes o advento de uma nova "era lusíada".

A tese da exclusividade lusa da saudade provocou as mais desencontradas reacções, sendo de realçar o enfrentamento que teve lugar entre o núcleo Saudosista e o Seareiro, provocando tensões evidentes entre Pascoaes ele próprio, e António Sérgio, reflectidas na importante polémica que ambos mantiveram. Não deveremos esquecer, porém, que a saudade portuguesa manifesta uma ligação clara à saudade universal. Se existe uma saudade portuguesa, é porque existe igualmente a saudade experienciada por outros povos. Refira-se no entanto, que o autor não foi suficientemente explícito nesta questão, particularmente durante o período em que se envolveu no movimento da "Renascença Portuguesa".

De destacar ainda que a ontologia monista e panteísta perfilhada por Teixeira de Pascoaes, concebendo que "tudo está em tudo", e que a inteligibilidade dos seres particulares se estrutura na referência ao todo de que fazem parte, determina que também a saudade lusíada encontre a sua origem na saudade universal apenas podendo por ela ser compreendida.

A saudade é uma via para o conhecimento: por ela abre-se uma via para uma mundividencia, uma concepção geral da existência. O "pensamento poético" de Teixeira de Pascoaes é a expressão da possibilidade de conhecimento que se abre pela via da saudade. O conhecimento poético é simultaneamente estético, metafísico e ontológico: estético porque o que lhe é próprio se conhece pelo sentimento, metafísico e ontológico porque o seu horizonte é o da verdade que manifesta um caracter transcendente.

BIBLIOGRAFIA

1-De Teixeira de Pascoaes

1895-Embryões (poesia)

1896-Belo (poesia)-1ª parte

1897-Belo-2ª parte

1898-À Minha Alma e Sempre (poesia)

1899-Profecia (poesia) - em colaboração com Afonso Lopes Vieira

1901-À Ventura (poesia)

1903-Jesús e Pan (poesia)

1904-Para a Luz (poesia)

1906-Vida Etérea (poesia)

1907-As Sombras (poesia)

1909-Senhora da Noite (poesia)

1911-Marânus (poesia)

1912-Regresso ao Paraíso (poesia). Elegias (poesia; O Espírito Lusitano e o Saudosismo (conferência)

1913-O Doido e a Morte (poesia); O Génio português na sua expressão filosófica poética e religiosa (Conferência)

1914-Verbo Escuro (Aforismos); A Era Lusíada (conferência)

1915-A Arte de Ser Português (prosa didáctica)

1916-A Beira Num Relâmpago (prosa)

1919-Os Poetas Lusíadas (conjunto de conferências proferidas na Catalunha)

1921-O Bailado (prosa filosófica) e Cantos Indecisos (poesia)

1922-Conferência e A Caridade (conferência)

1923-A Nossa Fome (prosa filosófica)

1924-A Elegia do Amor (verso) e O pobre Tolo

1925-D. Carlos (poesia); Cânticos (poesia); Sonetos

1926-Jesús Cristo em Lisboa (peça de teatro escrita em colaboração com Raul Brandão)

1928-Livro de Memórias (prosa autobiográfica)

1934-S.Paulo (biografia romanceada)

1936-S. Jerónimo e a Trovoada (biografia romanceada)

1937-O Homem Universal (prosa filosófica)

1940-Napoleão (biografia romanceada)

1942-Camilo Castelo Branco O Penitente (biografia romanceada); Duplo Passeio (prosa)

1945-Santo Agostinho (biografia romanceada)

1949-Versos Pobres

1950-Duas conferências em defesa da paz

 

A presente bibliografia não pretende esgotar a vastíssima produção de Teixeira de Pascoaes, referindo-se apenas alguns dos seus mais importantes textos

"Sobre Teixeira de Pascoaes", Carvalho, Joaquim de, Reflexões sobre Teixeira de Pascoaes, in Obra Completa, vol.V, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa,1987

Coelho, Jacinto Prado, Introdução às Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, vol.1,Bertrand, Lisboa,s/d.p.7

Coutinho, Jorge, O Pensamento de Teixeira de Pascoaes-Um Estudo Hermenêutico e Crítico, Publicações da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa,Braga,1995

Craveiro,Lúcio, A Filosofia em Teixeira de Pascoaes,«Revista Portuguesa de Filosofia»,34, (1979 p.51)

Gama, José, A Polémica Saudosista: Teixeira de Pascoaes e António Sérgio,«Brotéria»,114,(1982),p.185

Garcia, Mário, Teixeira de Pascoaes. Contribuição para o estudo da sua personalidade e para a leitura crítica da sua obra, Publicações da Faculdade de Filosofia, Braga,1976

Lourenço, Eduardo, O Labirinto da Saudade - Psicanálise Mítica do Destino Português, Publicações Dom Quixote, Lisboa,1968

Margarido, Alfredo, Teixeira de Pascoaes - A Obra e O Homem, Arcádia, Lisboa,1961

Sardoeira,Ilídio, A Influência do Princípio da Incerteza no Pensamento de Teixeira de Pascoaes«Revista Portuguesa de Filosofia»,11,(1955),p.620

Vasconcellos, Maria da Glória Teixeira de, Olhando Para Trás Vejo Pascoaes, Assírio & Alvim, Lisboa,1991

Vasconcellos, Maria José Teixeira de, Na Sombra de Pascoaes,Vega, Lisboa,1993» Dulcínea Teixeira


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