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Novidades Política / Diplomacia

Saraiva, António José. Inquisição e cristãos-novos. Lisboa: Editorial Estampa, 1985

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308 pp.; 21 cm. B.

António José Saraiva, Leiria, 1917 - Lisboa, 1993

Ensaísta, investigador e professor universitário.

António José Saraiva revelou-se publicamente como ensaísta com a publicação de Estética dos Autos de Devoção, em 1937, um ano antes de se licenciar em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras de Lisboa, com a tese Ensaio sobre a Poesia de Bernardim Ribeiro. Em 1942 doutorou-se pela mesma Faculdade com a tese Gil Vicente e o Fim do Teatro Medieval.

Após estagiar no Liceu Pedro Nunes, ingressou na carreira universitária, da qual se afastou por incompatibilidade com os métodos obsoletos da instituição. Entretanto, durante o seu estágio no referido Liceu, travou conhecimento com Óscar Lopes, partilhando com este último o entusiasmo da descoberta da filosofia de Bergson e Unamuno, mas também da sociologia da cultura, de raiz marxista.

Deste encontro resultou uma amizade frutuosa com reflexos perenes na história da cultura portuguesa, de que foi expoente a História da Literatura Portuguesa, cuja 1ª. edição veio a lume em 1956, mas com tal poder reflexivo e inovador que as sucessivas reedições, actualizadas e corrigidas, somam já dezassete. Esta obra, de que foi co-autor, no dizer de Óscar Lopes «nasceu de uma amizade afinal esteada sobre uma discussão permanente, que por vezes até meramente encenávamos, para experimentar razões e perspectivas: tu jogas com as pedras brancas, eu com as pretas, e depois trocamos (antes de 1943 e depois de cerca de 1965, não era preciso encenar; estávamos mesmo em campos opostos, mesmo em sensibilidade estética)» (in JL: Jornal de Letras, Artes e Ideias, 30/3/1993).

Tendo aderido ao Partido Comunista Português em 1944, veio a ser premiado pela Academia das Ciências de Lisboa em 1947, pela publicação da obra As Ideias de Eça de Queirós. Preso em 1949 pela polícia política da ditadura, a sua actividade pedagógica no ensino secundário foi-lhe proibida por motivos políticos e, em consequência, foi demitido, pelo governo de então, das funções de professor.

Até à sua saída para o estrangeiro, em 1960, publicara já uma vasta obra em que avultam a História da Cultura em Portugal; Para a História da Cultura em Portugal; A Escola Problema Central da Nação; Herculano e o Liberalismo em Portugal; além de várias edições de clássicos, prefaciadas e anotadas (texto integral ou seleccionado): Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Correia Garção, Camões, Garrett, Herculano. Data de 1960 o seu Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes, obra produzida numa directriz aparentemente marxista, de imediato apreendida por ordem do governo.

Em 1962, já no exílio, manifesta o seu inconformismo ao PCP, quando do Congresso pela Paz e Desarmamento, realizado em Moscovo. A partir deste momento a sua autonomia em relação ao PCP não cessou de se acentuar, até à completa ruptura. No exílio de Paris desempenhou funções de investigador do Centre National de Recherche Scientifique e, a partir de 1970, após concurso público internacional, de professor catedrático na Universidade de Amesterdão. Até ao regresso definitivo a Portugal publicou, entre outras obras, Camões (1962), Inquisição e Cristão-Novos (1968) e Maio e a Crise da Civilização Burguesa (1969).

Em Portugal, foi de 1975 a 1978 professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa, exercendo as mesmas funções na Universidade Clássica de Lisboa a partir de então. Em 1979 publicou A Épica Medieval Portuguesa e, em 1980, O Discurso Engenhoso. De uma vasta e polémica participação na vida pública, através da imprensa, resultou a obra Filhos de Saturno (1980), que reúne a sua colaboração em jornais de 1974 a 1979.

A sua obra tem sido reeditada recentemente. A Cultura em Portugal, de que foram publicados alguns volumes, constitui uma versão ampliada e alterada da anterior História da Cultura em Portugal.

A. J. S. foi compreendendo, à luz do cruzamento entre razão e sentimento, entre pessoas e coisas, que os mitos enraizados nas sociedades não podem ser iludidos ou amputados. Há que interrogá-los, que pô-los em confronto com valores, ideias e factos. Nisto consiste a versão alterada de que se fala na obra atrás mencionada. De resto, A. J. S. dá-nos um panorama do seu percurso, ao referir-se a António Sérgio numa outra obra deste período, A Tertúlia Ocidental (1990), ao acusar este último de ter sido um «historiador distraído», para quem o Portugal europeu, racionalista e «científico» surgia amputado do outro Portugal cavaleiresco, jesuítico, aventureiro ou sonhador: «de Portugal ficavam as navegações segundo um plano "racional" (isto é, burguês), planeado, etc. – tudo como deve ser. Claro que para este resultado era preciso eliminar mais de metade da nossa história.» Para o ensaísta importava não esquecer os vários lados do prisma. Sintomaticamente, nesta linha, A. J. S. admira em Oliveira Martins a capacidade, porque intimamente agasalhava na força da sua intuição, para «fantasiar o invisível que ele sabe existir, mas não conhece». Isto é, para A. J. S. havia que compreender o outro lado das coisas, interrogar as sombras.

É nesta mesma linha de pensamento que A. J. S. considera apenas três grandes livros sobre Portugal: Os Lusíadas, a História de Portugal de Oliveira Martins e a Mensagem de Fernando Pessoa. Para si tem que Camões nos deu uma acção alegórica de conjunto com um fundo historiográfico; O. Martins uma introspecção nacional a partir da historiografia; Fernando Pessoa a «condensação em mitos da narrativa de Oliveira Martins, principalmente».

Em 1982 A. J. S. foi agraciado com o Grau de Oficial da Instrução Pública, que não recebeu por sempre ter tido por «incoerentes com o Estado Democrático as distinções honoríficas, que equivalem à intenção de criar uma nobreza entre os cidadãos e que implicam que esse Estado tenha competência na esfera moral». Fiel a si próprio e fiel ao «patriotismo prospectivo» de António Sérgio, que procurou completar e enriquecer, A. J. S. é uma referência incontornável na cultura portuguesa contemporânea, que o tempo há-de revelar melhor, não só pela coerência até ao fim da sua vida intelectual mas também pelas potencialidades das pistas que contribuiu para abrir às gerações mais novas, interessadas em ver além das aparências e do contingente imediatismo.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997


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