Pedro Amorim Viana, Defesa do racionalismo ou analise da fé, Porto, 1866, 1ª edição

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Raro.

Obra seminal da chamada "Filosofia Portuguesa".

Consta no Index Librorum Prohibitorum, edição espanhola de 1866. 

«À influência do ambiente e da ideologia paternas, ao descobrimento do mal, ao choque com o Diário da Tarde e com... a Carta Constitucional, aliou-se a figura enigmática de Amorim Viana e a leitura da sua opus magnusDefesa do Racionalismo ou Análise da Fé, que, publicada em 1866, teve uma terceira edição em 1885. O Newton da Academia Politécnica do Porto, «sujíssimo, rotíssimo, sempre com um chapéu alto imundamente oleoso e com umas botas gretadas e cambas», atravessava «filosoficamente de bengala na mão as ruas do Porto, ainda que chovesse a cântaros, fazia paragens nos botequins, especialmente no chalet da Cordoaria, para beberricar bebidas brancas, genebra, de preferência», e encafuava-se longamente, indiferente a tudo, na Biblioteca Pública. Aí, Bruno e Basílio Teles, meninos do Liceu, «com um estremecimento íntimo», iam «espreitar o sábio no isolamento da sua absorvida leitura». Um sábio, da categoria de «Descartes, Montesquieu, Jouffroy», ali à mão de semear, nas ruas do Porto! Era de fazer perder a cabeça a jovens intelectualmente ambiciosos...», como por exemplo Sampaio Bruno. Joel Serrão

Pedro de Amorim Viana


«Filósofo e matemático português (Lisboa, 1822-1901), professor da Academia Politécnica do Porto (1850-1883), foi uma das figuras de maior relevo do nosso pensamento especulativo de oitocentos e o iniciador do ciclo contemporâneo da filosofia portuguesa, que teve no Porto o seu pólo irradiador.

O pensamento filosófico de Amorim Viana, expresso, fundamentalmente, no livro Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé (1866) e nos artigos que, de certo modo, o preparam, publicados na revista portuense A Península (1852-1853), apresenta-se de feição racionalista e espiritualista, tendo como referências principais Platão, Espinosa, Leibniz e Kant.

Opondo-se, criticamente, ao sensismo da geração anterior à sua, bem como ao positivismo e ao materialismo que grande parte da geração seguinte tenderá a abraçar, Amorim Viana entendia a filosofia como actividade permanente do espírito humano, independente da ciência, à qual, no entanto, fornece os princípios ontológicos que a possibilitam e fundamentam como saber coerente, sistemático e orgânico.

Da natureza que atribuía à filosofia, resultava, para o filósofo-matemático, dever o seu ponto de partida ser o estudo dos factos da consciência, estudo que nos revelaria, por um lado, que o homem é um ser dotado de inteligência, liberdade e sensibilidade, que deve conhecer, escolher e amar o sumo bem para que foi criado, e, por outro, que os factos psicológicos se não confundem nem identificam com os fenómenos psicológicos. Assim, o primeiro problema que à reflexão filosófica cabe procurar responder é o da relação da alma e do corpo, entendendo Amorim Viana que a doutrina da harmonia pré-estabelecida, formulada por Leibniz, era a que melhor o resolvia. A este propósito, notava o sábio portuense não proceder contra aquela doutrina o argumento de que não era conciliável com a liberdade, pois tal problema só no plano da providência divina poderia solucionar-se.

No cerne da reflexão de Amorim Viana encontra-se a ideia de Deus e o problema das relações entre razão e fé, filosofia e religião.

Quanto a esta questão, pensava o filósofo ser incorrecto opôr a fé à razão, pois aquela não constituía um afecto da alma nem um fenómeno sobrenatural, sendo antes uma revelação natural e interior, uma iluminação superior do entendimento que se continha nos estritos limites da razão. Por outro lado, a razão comunicaria com o ser divino dentro dos seus próprios limites e não de uma maneira inefável, misteriosa ou sobrenatural, sendo, por isso, as verdades racionais revelações divinas.

Daqui decorria, então, que Deus se revelava tanto à razão como à fé humanas no que lhes é compreensível, pelo que o homem estaria impedido de alcançar qualquer conhecimento do ser íntimo de Deus e da sua essência infinita, apenas podendo conhecer o seu ser para nós e em nós. Pensava, contudo, o filósofo que, através da razão e do sentimento moral, Deus se nos revelava de modo mais profundo e completo do que na harmonia do universo.

Assim, no pensamento filosófico do lente da Academia Politécnica portuense, ao lado do domínio da razão, haveria o do sentimento moral e o dos mistérios, que com o primeiro se conjugavam de modo harmonioso. Com efeito, o sentimento moral era conforme à razão, embora dela distinto, enquanto os mistérios seriam verdades que excediam a capacidade cognitiva da razão, sem, contudo, a contradizerem ou se lhe oporem.

Por seu turno, o conceito de razão de Amorim Viana apresentava-se de recorte ainda iluminista, como o de uma razão luminosa e segura de si, na sua origem divina, no seu processo lógico-discursivo e na finalidade transcendente, a qual não só se não interrogava ou se questionava sobre os seus limites ou o seu saber de si, recusando todo o irracional e todo o negativo, como se iria progressiva e indefinidamente adequando ao conhecimento da realidade.

É neste conceito de razão que se apoia a consideração crítica a que, na sua obra capital, o filósofo sujeitou os dogmas essenciais do cristianismo, como os do pecado original, da divindade de Jesus ou da Trindade divina, e os problemas da possibilidade da profecia e do milagre, da realidade do mal e da imortalidade da alma humana.

Assim, ao mesmo tempo que considera carecidos de sentido o pecado original e as ideias de queda e de redenção e impossíveis a profecia, o milagre e a divindade de Jesus, sustentava que o mal não tinha existência real e, quanto à imortalidade da alma, perfilhava uma espécie de retormismo ascendente, segundo o qual, após a vida terrena, o homem habitaria outro espaço, no qual nasceria e morreria, para começar nova existência noutra região, numa sucessão de nascimentos e mortes, em que seria cada vez mais perfeito e se aproximaria cada vez mais do bem, embora nunca chegasse a atingir a infinita perfeição, que constituía exclusivo atributo divino.»

Bibliografia Passiva Essencial
BRITO, António José, Uma "Defesa do Racionalismo", no Porto, na segunda metade do séc. XIX, Porto, 1962.
BRUNO, A ideia de Deus, Porto, 1902.
DIONÍSIO, Sant'Ana, Teólogo laico, Lisboa, 1961.
PIMENTEL, Manuel Cândido, "Amorim Viana e Kant: a fé nos limites da razão", in Religião, História e Razão, da "Aufklärung ao Romantismo", Lisboa, 1994.
SOVERAL, Eduardo Abranches de, "Situação de Amorim Viana na História da Filosofia Portuguesa", na Revista da Faculdade de Letras do Porto – Filosofia, 2ª série, nº 7, 1990.
TEIXEIRA, António Braz, Prefácio à 4ª ed. de Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé, Lisboa, 1982.

António Braz Teixeira


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