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José Manuel Sarmento de Beires, De Portugal a Macau, (A Viagem do “Patria”), Edição da Seara Nova, Lisboa, 1925

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Exemplar encadernado com dedicatória do autor. 

Ilustrado em extra-texto com 8 fotografias (provas fotográficas) montadas em separado em cartolinas próprias intercaladas no texto.

«Quando o "Pátria" cruzou o Oriente

Iniciada a 7 de Abril de 1924 pelos pilotos Brito Paes e Sarmento de Beires, a primeira e histórica viagem aérea entre Portugal e acau terminou dois meses e meio depois, a 20 de Junho desse mesmo ano. A última etapa foi atribulada, mas o avião chegava enfim ao seu destino. Faz agora 75 anos.

A 20 de Junho de 1924, o "Pátria" - o primeiro avião português a cruzar os céus que viram Camões rabiscar os Lusíadas - chegava finalmente a Macau, depois de uma viagem atribulada, penosa e difícil, em que a monção, como que pretendendo vingar-se da ousadia dos pilotos portugueses, fizera derramar sobre eles toda a chuva e vento que conseguira embrulhar em relâmpagos e trovões. Essa última etapa, que amanhecera no aeródromo de Tong (Vietname) cheia de esperança e de anseio, despertara sob a luz de um sol manso, a desfazer a bruma.

Pouco depois da descolagem, o aparelho singrava no ar, mergulhado numa atmosfera cálida que se desprendia dos primeiros raios de sol, mal se antevendo, na paz daquela hora, todas as fúrias e rigores que se abateriam sobre ele durante o resto da jornada. Um quarto de hora depois, Hanói desdobrava-se lá em baixo, por entre um tapete de arrozais verdes e insalubres. À medida que o tempo passava, pois entretanto o conta-milhas deixara de funcionar, o termo de toda aquela aventura começava a perfilar-se, cada vez mais, naquela última linha do horizonte, onde Macau se escondia à distância de apenas algumas horas, e se adivinhavam já os julgamentos que o mundo faria da viagem do "Pátria", viagem que se iniciara a 7 de Abril, quase anónima, em Vila Nova de Milfontes, na costa alentejana.A viagem, que decorreu ao longo de 25 etapas e na qual se utilizaram dois aparelhos - um Breguet XVI Bn2 de fabrico francês, equipado com um motor Renault de 350 Cv; e um De Haviland DH9, de fabrico inglês, equipado com um motor Liberty de 400Cv -, foi protagonizada por um piloto (Sarmento de Beires), um navegador (Brito Paes) e, em muitas das suas etapas, por um mecânico (Manuel Gouveia), figura a que não se reconheceu, em vida, o importante papel que desempenhou na aviação portuguesa durante os periodos Pioneiro e Heróico. Ao longo da viagem cumpriram-se uma série de percursos durante os quais se chegou a voar a mais de 4.500 m de altura, e a suportar temperaturas negativas, num avião aberto em que os pilotos voavam em contacto directo com o ar e a uma velocidade superior a 150Km/h. Nesta última etapa, o vento de Sudoeste acabaria por se revelar fortíssimo, impelindo o aparelho para a região entre Mon-Kay e Pak-Hoi, onde qualquer aterragem seria uma aventura perigosa, pois a região estava infestada de piratas. Pouco depois, a leste da Península de Lei-Tcheou, o tempo começaria a fecharse e a visibilidade a diminuir, revestindo-se o céu de cores explosivas, onde tons claros de luz se misturavam aos negrumes plúmbeos da tempestade eminente. Num pedaço de papel, Brito Paes rabiscou um recado para Beires: "Yang-Kiang. 208km/h. Faltam 150". Quase de seguida o horizonte fecha-se de todo, enquanto grossas bátegas de água se desprendem das nuvens, oblíquas e furiosas, encharcando tudo e todos os que se lhe atravessam.Pela cabeça de Sarmento de Beires chega a passar a ideia de retroceder, mas Brito Paes, que tem a navegação a seu cargo, depressa o desilude: - "Kouang 200 Km. Vento contra. Macau 150". Para evitar a tempestade, o piloto leva o aparelho até aos 2.800 m, mas o temporal acompanha-os, cada vez mais revolto, cada vez mais trágico. Inesperadamente o motor hesita, verificando-se então que o gerador deixara de trabalhar.Teoricamente, ainda podiam voar mais 2 horas, e como esperavam encontrar Macau dentro de 30 minutos, não hesitam em continuar. Decorrem vinte minutos. De súbito, Brito Paes pede ao piloto que desça, pois vislumbrara um ponto na costa que reconhecera e não queria perder. Quase de seguida, mergulhada na neblina, aparece lá em baixo a ilha da Lapa. Então, disparam a todo o gás para o istmo de Macau, passando sobre a Ilha Verde e sobre as Portas do Cerco. Desesperados, tentam romper as nuvens e reconhecer no solo os pontos que uma carta desenhada a lápis de cor indica como os ideais para aterrar, mas isso verifica-se impossível. E como havia o risco de se despenharem, rumam para Norte, soltando pouco depois o rumo para Este, seguindo a linha férrea de Kow-lung. O aparelho estava no limite e o motor mal respondia. Beires poisa então a vista num pequeno terreno aberto e, com um gesto, informa Brito Paes de que para baixo é o caminho.Quando dava a volta para aterrar, ainda antes de aproar ao vento, o motor parou e o “Pátria 2" apressou a descida, tocando o solo vertiginoso e descontrolado, numa corrida sem travões, que terminaria contra um socalco de terra onde se partiriam o trem de aterragem e a hélice. O local era o cemitério chinês de Shum-Chum. O "Pátria" não aterrara em Macau, mas o objectivo tinha sido atingido. Dias depois seriam repatriados para Macau, onde foram recebidos em triunfo, curiosamente a bordo uma canhoeira da Armada Portuguesa chamada "Pátria"! Afinal sempre foi de "Pátria" que chegaram ao destino.»

HENRIQUES-MATEUS, in: Público,  21/06/1999

 


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