Fernando Pessoa, A nova poesia portuguesa, Inquérito, Lisboa, 1944 (com prefácio de Álvaro Ribeiro)

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Fernando Pessoa

Poeta, ficcionista, dramaturgo, filósofo, prosador, Fernando Pessoa nasceu em Lisboa a 13 de junho de 1888 e aí faleceu a 30de novembro de 1935.  

É, inequivocamente, a mais complexa personalidade literária portuguesa e europeia do século XX.

Com apenas sete anos e após a morte do pai, partiu para a África do Sul onde o seu padrasto ocupava o cargo de cônsul interino.Durante os dez anos que ali viveu, realizou com distinção os estudos liceais e redigiu alguns dos seus primeiros textos poéticos, atribuídos a pseudónimos, entre os quais se salienta o de Alexander Search.  

Com dezassete anos, abandona a família e regressa a Portugal,com a intenção de ingressar no Curso Superior de Letras. EmLisboa, acaba por abandonar os estudos, sobrevive como correspondente comercial de inglês e dedica-se a uma vidaliterária intensa. Desenvolve colaboração com publicações(algumas delas dirigidas por si) como  A República, Teatro, A Águia,A Renascença, Eh Real, O Jornal, A Capital, Exílio, Centauro,Portugal Futurista, Athena, Contemporânea, Revista Portuguesa,Presença, O Imparcial, O Mundo Português, Sudoeste, Momento. 

Com Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros, entre outros,leva a cabo, em 1915, o projeto de  Orpheu , revista que assinala a afirmação do modernismo português e cujo impacto cultural e literário só pôde cabalmente ser avaliado por geraçõesposteriores.  

Tendo publicado em vida, em volume, apenas os seus poemas ingleses e o poema épico  Mensagem , a bibliografia que legou à contemporaneidade é de tal forma extensa que o conhecimento da sua obra se encontra em curso, sendo alargado ou aprofundado à medida que vão saindo para o prelo os textos que integram um vastíssimo espólio. Mais do que a dimensão dessa obra, cujos contornos ainda não são completamente conhecidos, profícua em projetos literários, em esboços de planos, em versões de textos, em interpretações e reflexões sobre si mesma, impõe-se, porém, a complexidade filosófica e literária de que se reveste.  

Dificilmente se pode chegar a sínteses simplistas diante de um autor que, além da obra assinada com o seu próprio nome, criou vários autores aparentemente autónomos e quase com existência real, os heterónimos, de que se destacam - o seu número eleva-se às dezenas - Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, cada um deles portador de uma identidade própria; de uma arte poética distinta; de uma evolução literária pessoal e ainda capazes de comentar as relações literárias e pessoais que estabelecem entre si.  

A esta poderosa mistificação acresce ainda a obra multifacetadado seu criador, que recobre vários géneros (teatro, poesia lírica e épica, prosa doutrinária e filosófica, teorização literária, narrativa policial, etc.), vários interesses (ocultismo, nacionalismo, misticismo, etc.) e várias correntes literárias (todas por si criadas e teorizadas, como o paulismo, o intersecionismo ou o sensacionismo).  

Elevando-se aos milhares de milhares as páginas já publicadas sobre a obra de Fernando Pessoa, e, muito particularmente, sobre o fenómeno da heteronímia, uma das premissas a ter em conta quando se aborda o universo pessoano é, como alertaEduardo Lourenço, não cair no equívoco de "tomar Caeiro, Campos e Reis como  fragmentos  de uma totalidade que convenientemente interpretados e lidos permitiriam reconstituí-la ou pelo menos entrever o seu perfil global. A verdade é mais simples: os  heterónimos são a Totalidade fragmentada  [...]".  

Por isso mesmo e por essência não têm leitura  individual,  mas igualmente não têm  dialéctica  senão na luz dessa Totalidade deque não são  partes,  mas plurais e hierarquizadas maneiras de uma única e decisiva fragmentação. (p. 31) Avaliando  a posteriori  o significado global dessa aventura literária extraordinária revestem-se de particular relevo, como aspetos subjacentes a essas múltiplas realizações e a essa Totalidade entrevista, entre outros, o sentido de construtividade do poema (ou melhor, dos sistemas poéticos) e a capacidade de despersonalização obtidapela relação de reciprocidade estabelecida entre intelectualização e emoção.  

Nessa medida, a obra de Fernando Pessoa constitui uma referência incontornável no processo que conduz à afirmação da modernidade, nomeadamente pela subordinação da criação literária a um processo de  fingimento que, segundo FernandoGuimarães, "representa o esbatimento da subjetividade que conduzirá à poesia dramática dos heterónimos, à procura da complexidade entendida como emocionalização de uma ideia e intelectualização de uma emoção, à admissão da essencialidade expressiva da arte" bem como à "valorização da própria estrutura das realizações literárias" (cf.  O Modernismo Português e a sua Poética , Porto, Lello, 1999, p. 61).  

Deste modo, a poesia de Fernando Pessoa "Traçou pela sua própria existência o quadro dentro do qual se move a dialética mesma da nossa Modernidade", constituindo a matriz de uma filiação textual particularmente nítida à medida que a sua obra, e a dos heterónimos, ia, ao longo da década de 40, sendo descoberta e editada, a tal ponto que, a partir da sua aventura poética, se tornou impossível "escrever poesia como se a sua experiência não tivesse tido lugar." (LOURENÇO, Eduardo, cit.por MARTINHO, Fernando J. B. -  Pessoa e a Moderna PoesiaPortuguesa - do "Orpheu" a 1960 , Lisboa, 1983, p. 157.)


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