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Livros invulgares Expansão/ Descobrimentos

Boxer, Charles Ralph, The Portuguese Seaborne Empire. London, Hutchinson & Co, 1969

150 € Adicionar
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1ª edição.

xxvi, 426, [17] pp., tabelas; mapas ; 21 cm.


«Charles Boxer, samurai acidental

Fernando Correia de Oliveira 17 de Março de 2001; in Jornal Público.

Foi o maior historiador estrangeiro da Expansão portuguesa. Charles Boxer, soldado, viajante, professor, bibliófilo, é uma figura fascinante. A Fundação Oriente patrocina a primeira biografia que lhe é dedicada.
Esta é uma história de dedicação e amizade. E de muita admiração. O académico Dauril Alden, da Universidade de Washington, liderou o esforço de pesquisa e de escrita. Mas os amigos James S. Cummins e Michael Cooper ajudaram muito. Os três nutrem uma relação muito especial com a figura de Charles Ralph Boxer, o maior historiador estrangeiro da Expansão portuguesa. O projecto da biografia de Boxer, que morreu a 27 de Abril de 2000, tinha nascido três anos antes. O trabalho está agora acabado, a edição, só em língua inglesa, patrocinada pela Fundação Oriente, sairá em Abril. Haverá um lançamento oficial em Londres, no King's College, onde Boxer foi durante muitos anos responsável pela cátedra de Estudos Portugueses.Charles Ralph Boxer nasceu na ilha de Wight em 1904. Do lado paterno, era descendente de uma família com grandes tradições militares, que servira em postos de comando em todas as guerras disputadas pela Grã-Bretanha desde a Revolução Francesa. O pai morreu em França, durante a I Guerra Mundial. Ele e o irmão estavam, naturalmente, destinados à carreira militar, frequentando as academias de Wellington e Sandhurst.Oficial ao serviço da Coroa na Irlanda do Norte, a ida para o Japão, em 1930, como oficial intérprete, marca para sempre a sua vida. Partilha a estrita disciplina dos seus colegas soldados japoneses, inicia-se na filosofia zen, pratica artes marciais, como o kendo. Estacionado a partir de 1936 em Hong Kong, viaja pela região, investigando fontes directas, comprando velhos livros, coleccionando moedas e outras antiguidades. Vai a Macau. Com grande facilidade para a aprendizagem das línguas, acrescenta ao japonês fluente, o português, o holandês, o espanhol, o alemão, o italiano.A II Guerra Mundial, dizem hoje muitos especialistas, começou em meados da década de 30, quando os japoneses invadiram a China. Boxer está nos serviços secretos britânicos em Hong Kong quando isso acontece. E quando os japoneses invadem a colónia, em Dezembro de 1941, é gravemente ferido em combate.A biografia dirigida por Dauril Alden é a primeira do género, apesar da notoriedade da figura de Boxer, que nunca cultivou o hábito de escrever um diário ou sequer apontamentos pessoais. Mas o trabalho da equipa Alden/Cummins/Cooper é extraordinário, pois recolhe o essencial da vasta epistologia (Boxer correspondeu-se até quase à sua morte com académicos de todo o mundo), recolhe depoimentos dos que ainda estão vivos e passaram pela aventurosa e rica vida do historiador, recolhe fontes até agora inéditas, incluindo colaborações dispersas do biografado, num levantamento exaustivo."Talvez dentro de algum tempo venhamos a ver que Boxer foi o historiador inglês que realmente teve importância na segunda metade do séc. XX", dizia há dias no "The Guardian" o jornalista Hywel Williams. Mas a biografia sai numa altura em que esse mesmo artigo do jornal londrino lança suspeitas sobre a honra de Boxer e o seu comportamento quando foi feito prisioneiro pelos japoneses (ver caixa). Com uma vida social muito activa e rodeada de algum escândalo (casou duas vezes, a última com a norte-americana Mickey Hahn, uma figura em si lendária, pelo seu feminismo, pelas atitudes ousadas, e de quem teve duas filhas) Boxer foi amigo de Monsenhor Manuel Teixeira, uma das figuras incontornáveis da história de Macau. "Um dia, - recorda o padre - perguntei-lhe qual era a sua religião. Ele respondeu-me: 'Do pescoço para cima sou episcopaliano, mas do pescoço para baixo sou mórmon!'"Boxer deixou a carreira militar logo após a II Guerra Mundial. "Não é habitual para um soldado profissional, com 43 anos e sem títulos académicos, entrar na vida universitária, como professor de Português, depois como Professor de História do Extremo Oriente e, mais tarde, professor de História da Expansão Europeia no Ultramar", notava S. George West no livro publicado por ocasião do 80º aniversário de Boxer, ao recordar a decisão do historiador em aceitar o convite para reger a cátedra Camões, no King's College, de Londres, que ocupou de 1947 a 1967, quando se reformou e passou a integrar o corpo docente de Yale.As relações de Boxer, que nunca se considerou um político, com o regime salazarista foram de cordialidade até 1963. Mas, quando se publica, em Inglaterra, e apenas em língua inglesa, o seu "Relações Raciais no Império Colonial Português - 1415-1825", estala uma grossa polémica, com o seu amigo de décadas e antigo refugiado Armando Cortesão (1891-1977), irmão mais velho do também historiador Jaime Cortesão, a ser o porta-estandarte das posições mais nacionalistas e anti-Boxer.O historiador britânico apenas se limitara a dizer na obra que o não racismo na história do colonialismo português não passava de um mito. E dava profusos exemplos de maus tratos, perseguições, nos séculos de administração lusa de territórios em África, América ou Ásia. Mas talvez o principal ponto de irritação do regime tenha sido o facto de Salazar ter dado, pouco antes, na "Life" norte-americana, uma das suas raras entrevistas. O anti-colonialismo nas Nações Unidas ia apertando com Lisboa, a Índia já tinha tomado pela força Goa, Damão e Dio, a guerra de Angola tinha começado. E Salazar dizia na revista que as colónias eram apenas "províncias" do todo português, que não estavam preparadas para a independência, dado que os seus povos eram bárbaros e precisavam de ainda mais algum tempo de "acção civilizadora". Acrescentava que, em tempo algum, no Império português, se tinha perseguido em ordem de raça ou credo. Boxer citava o ditador, para o contradizer."Estou convencido de que Armando Cortesão foi apenas o porta-voz de Salazar", dizia-nos Boxer, pouco antes de morrer, na sua casa a norte de Londres. Na polémica que alimentou a madornice lusa dos anos 60, ao lado de Cortesão, que voltara do exílio em 1952 e se acomodara ao regime, alinharam nomes como Silva Rego, Virgínia Rau ou o brasileiro Gilberto Freyre. Do lado de Boxer, e publicamente, o que exigia muita coragem, manifestaram-se então Albertino Monteiro Crespo, António Álvaro Dória, o padre capuchinho Leite de Faria, Avelino Teixeira da Mota, o macaense Jack Braga, Joel Serrão.De figura amada, por nos seus livros descrever a gesta dos portugueses nas sete partidas, a "persona non grata", por atacar o mito da inter-racionalidade do Império, Boxer deixou de visitar tão assiduamente Portugal, os seus livros passaram a ser proibidos, as "Relações..." só foram publicadas em português depois de 25 de Abril de 1974.Incessante na leitura comentada de livros, dizendo muitas vezes que as obras de colegas eram melhores do que as dele, Boxer irradiava simpatia, era extremamente respeitado, mesmo no Vaticano ou junto de ordens religiosas como os Jesuítas, que viam nele uma autoridade em assuntos orientais. Isto apesar de, quando na "solitária", ter recusado a Bíblia que os japoneses lhe colocavam à disposição, preferindo Shakespeare.Quando deixou de escrever, em 1984, Boxer era autor de mais de 350 livros e artigos. Uma obra que não ficaria completa sem esta biografia de alguém que viveu uma vida pouco comum.»


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