Ir para o conteúdo

//Novidades// Ciências

Augusto da Silva Carvalho, O Abade Correia da Serra, Academia das Ciências, Lisboa, 1948

60 € Adicionar
Acresce o valor do transporte pelos CTT (de acordo com as tabelas em vigor para o correio registado ou não registado). Enviar email para informação de envio por correio.

José Francisco Correia da Serra, (mais conhecido pela denominação franceza de Abbade Corrêa), Presbytero Secular, Fidalgo da Casa Real, do Conselho de Sua Magestade, Conselheiro da Fazenda, Commendador da Ordem de N. S. da Conceição, Cavalleiro da de Christo, Doutor em Direito Canonico pela Universidade de Roma; Conselheiro de Legação e Agente diplomatico em Londres, Ministro plenipotenciario de Portugal junto ao Governo dos Estados-Unidos; Deputado ás Côrtes ordinarias em 1822; Socio fundador, e Secretario perpetuo da Academia Real das Sciencias de Lisboa; Sócio da Sociedade Real de Londres, da Linneana e da dos Antiquários da mesma cidade; Membro correspondente do Instituto de França, da Sociedade Philomática de Paris; das Academias de Turim, Florença, Bordeaux, Lião, Marselha, Liege, Sena, Mantua e Cortona; e das Sociedades Reaes da Agricultura do Piemonte, e da Toscana; e da Económica de Valença etc.- N. na villa de Serpa, na província do Alemtejo a 6 de Junho de 1750, sendo filho do bacharel em medicina Luis Dias Corrêa, e de sua mulher D. Francisca Luisa da Serra.- Passou com seus paes para a Italia em 1756, e foi educado em Roma, dizem que sob os auspicios do duque de Lafões D. João de Bragança; alli recebeu a ordem de presbytero em 1775. Regressando a Portugal por via de Hespanha, entrou n’este reino por Mertola com a sua familia em 29 de Março de 1777, havendo erro da parte dos que o suppuzeram recolhido na companhia do seu protector, cuja chegada parece que só se realisára algum tempo depois. Honrado com o favor e confiança do duque, e assistindo com elle no proprio palacio, traçou José Corrêa da Serra os fundamentos e organisação da Academia Real das Sciencias de Lisboa, sendo approvados os respectivos estatutos por aviso regio de 24 de Dezembro de 1779. Erradamente se persuadem alguns de que fôra elle o primeiro secretario d’esta sociedade; quando é certo que succedêra n’este cargo ao Visconde de Barbacena, que o deixou, ao que eu presumo, pelo motivo de sua nomeação para o de governador da capitania de Minasgeraes. 

Duas vezes teve Corrêa da Serra de abandonar a patria, para subtrahir-se ás perseguições de invejosos ou adversarios. Da primeira, que parece haver tido logar em 1786, resta um testemunho irrecusavel no soneto que lhe dirigiu Domingos Maximiano Torres (e o LXVIII no volume dos Versos d’este poeta, impressos em 1791). Da segunda em 1797, falam mais extensamente todos os seus biographos. Em Londres, para onde fôra, recebeu a nomeação de conselheiro da Legação Portugueza, por decreto de 18 de Abril de 1801; porém foi em breve destituido, ao que se diz, por intrigas do embaixador portuguez n’aquella côrte; e n’esse mesmo anno, ou no seguinte, se transferiu para Paris, onde prolongou a sua residência até 1813. Sahiu de lá para os Estados-Unidos, vivendo em principio como particular; e professando depois em Philadelphia um curso de botânica, até que el-rei D. João VI, ainda príncipe regente, o nomeou em 31 de Janeiro de 1816 seu ministro plenipotenciario junto ao governo da republica. N’este cargo prestou o importante serviço que se colhe da Gazeta extraordinária do Rio de Janeiro, n.o 2, do 1.o de Maio de 1817. Foi nomeado conselheiro da Fazenda em 1819, e agraciado com a commenda da Ordem da Conceição em 28 de Maio do mesmo anno, tendo-o já sido com o habito de Christo em 6 de Agosto de 1807.- Em Agosto de 1821 restituiu-se a Lisboa, achando- se pouco depois novamente eleito secretario da Academia, e no anno seguinte deputado ás Côrtes ordinarias, nas quaes tomou assento, pelo circulo eleitoral de Beja. Foram estas as ultimas funcções publicas que desempenhou. Enfermo de diabetes, e aggravando-se-lhe de dia para dia os symptomas d’este importuno e incurável padecimento, appellou em ultimo recurso, e por conselho de peritos para o uso dos banhos das Caldas da Rainha: mas em vez do alivio que esperava viu chegado o termo fatal, expirando na mesma villa das Caldas a 11 de Setembro de 1823, e não em Agosto, como inadvertidamente escapou a alguns dos seus biographos. 

Os elogios não suspeitos que o nosso sábio compatriota recebeu dos estrangeiros, que de mais perto tiveram occasião de conhecer e avaliar a profundidade dos seus conhecimentos nas sciencias naturaes, são outros tantos testemunhos inconcussos da realidade do seu merito, e servem de gloria para a patria que lhe deu o ser. Para o caracterisar como botanico sobeja o conceito que d’elle faz o celebre professor De Candolle na Theorie Elem. de la Botanique, cujas palavras poderá quem quizer ver traduzidas na Revista Universal Lisbonense de 11 de Julho de 1844, n.o 48, artigo 3153. De outros muitos que poderia citar, apontarei com particularidade, por tel-os agora presentes, Balbi no Essai Statistique, tomo II, pag. LIII; Link, Voyage en Portugal, tomo I, pag. 291; e Ferdinand Denis, Resumé de l’Hist. Litt. du Portugal, pag. 506; Sané, Poésie lyrique Portug., na Introduction pag. LXXVIII: recordando-me de ter lido ha annos a seu respeito um artigo na Biographie Universelle, cheio egualmente de expressões honrosas, mas que (seja dito de passagem) deixava muito para desejar no tocante á exactidão de factos e datas, como acontece, salva alguma excepção rarissima, em todas as biographias de portuguezes traçadas por extranhos que, faltos quasi sempre de boas informações, merecem n’esta parte pouca ou nenhuma fé. 

Do que entre nós se escreveu até agora ácerca da vida e feitos de Corrêa da Serra, apontarei: 1.º um artigo biographico assás succinto, que foi inserto no Diario do Povo, n.º 34 de 23 de Dezembro de 1835, e me parece não passa de traducção, ou extracto do artigo da Biopraphie Univ. a que acima alludi. 2.º Outro no Archivo Popular, vol. II (1838), pag. 223, que está pouco mais ou menos nas mesmas circumstancias. 3.o Outro na Collecção de Retratos e biographias das personagens illustres de Portugal, 1840. (Vej. no Diccionário o tomo II n.º C, 358). 4.º O Elogio académico de Corrêa da Serra por Manuel José Maria da Costa e Sá, lido na Academia, e publicado no tomo II, parte 2.ª da segunda serie das respectivas Memórias (1848), de pag. IX a XXV. 5.o Os Apontamentos para a biographia de Corrêa da Serra, insertos na Illustração, jornal universal, tomo II (1846), a pag. 9, continuados a pag. 13, e seguidos de um catalogo das obras do abbade a pag. 43.- Estes apontamentos são tidos por mais exactos e dignos de fé que todos os precedentes, como fundados sobre os que em seu poder conserva o sr. M. B. Lopes Fernandes, havidos da própria mão de D. Maria José, irmã de José Corrêa da Serra. Por elles cumpre rectificar as desconcordancias, e preencher as lacunas que mais ou menos se encontram nas outras biographias. O catalogo dos escriptos extrahido, como lá se diz, da Notice sur la vie et les travaux de Mr. Corrêa da Serra pelo sr Conde do Lavradio (Vej. D. Francisco de Almeida Portugal), memória lida na Sociedade Philomatica de Paris, e inserta nas do Museu da mesma cidade, anno 1824, da qual se tiraram em separado alguns exemplares. 6.º A noticia que sob o titulo Bosquejos biographicos: o Abbade Corrêa da Serra, e Felix Avellar Brotero publicou em 1853 o sr. dr. Rodrigues de Gusmão; é para sentir que este não tivesse presentes para a elaboração do seu consciencioso trabalho os apontamentos já então impressos na Illustração, com os quaes facilmente se premuniria contra as poucas inexactidões, a que o induziram os guias menos fieis que só pôde consultar. 

Na sala das sessões da Academia existe um quadro pintado a oleo, que passa por ser o retrato de Corrêa da Serra: as feições offerecem todavia notavel dessimilhança confrontadas com as de outro retrato da mesma especie, que possue o já dito sr. M. B. Lopes Fernandes; do qual segundo creio, são cópias os que appareceram lithographados, tanto na collecção acima citada, como em outra de similhante genero, porém de menor formato e peior execução artistica, que sahiu em 1843 ou 1844; e bem assim o que precede os apontamentos biographicos na Illustração. 

Inocêncio Francisco da Silva, Dicionário bibliográfico português. Estudos aplicáveis a Portugal e ao Brasil. Lisboa: Imprensa Nacional, 1858-1923

 


Scroll to Top