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Livros invulgares Literatura portuguesa

António Sérgio, Os conselheiros do Califa e O cavalo de Alexandre, Lisboa, Aillaud & Bertrand, 1927

Indisponível
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1ª edição. Exemplar em perfeito estado. 

23, [1] pp.; il.; 18cm

Invulgar.

 

Ilustrações de: Màmia Roque Gameiro, 1901-1996

Màmía Roque Gameiro

Maria Emília Roque Gameiro nasceu entre tintas e pincéis, em 7 de Setembro de 1901, na Amadora. Cedo recebeu o petit nom, que a tornou conhecida: Màmía. Sua mãe foi Assunção Roque Gameiro e seu pai, Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), era há muito um reputadíssimo aguarelista e artista gráfico. Tem sido uma das muitas artistas que a História deixou por contar e procurou-se dar a ver a sua obra, retrospectivamente. Quem a ensinou a ver e a desenhar foi justamente seu pai e a estreia no domínio da ilustração foi ocasional e precoce: aos 6 anos n’O Jornal dos Pequeninos, da prolífica lavra de Ana de Castro Osório (1872-1935). Este início anunciou um futuro como ilustradora que efectivamente se tornaria nas décadas de 20 e 30. Ainda da sua meninice, consta que frequentou a Escola Alexandre Herculano, na Amadora. Màmía parece ter tido propensão natural para a pintura a óleo, inclinação que seu pai fomentou, afirmando que na família «já bastava de aguarelistas» e incentivando-a a estudar esta outra técnica. Recebeu indicações, possivelmente casuais, de José Malhoa (1855-1933), mas foi discípula aplicada da pintora modernista Mily Possoz (1888-1968). Aliás, a sua tendência estética inicial foi um modernismo sereno e suave, usando bem menos o naturalismo que via praticar em casa. Captar as formas de modo sintético, foi algo que a definiu. Logo em 1919, Màmía expôs na Sociedade Nacional de Belas-Artes, mas até ao fim da sua vida não participou em muitos certames. No catálogo registou a sua morada profissional na Rua D. Pedro V, 30, em Lisboa, ou seja, no conhecido atelier de seu pai, onde deu aulas particulares de desenho e pintura. Foi lá que organizou uma exposição individual em 1923, cuja apresentação no catálogo foi redigida pelo arquitecto Raul Lino. Após esta mostra, dedicou-se, especialmente até ao final da década de 30, à ilustração artística. Cinquenta anos volvidos realizou outra exposição individual no mesmo espaço. Foi ainda em 1919 que deu início à sua vertente como ilustradora científica, tarefa que muito prendeu o seu olhar nas décadas de 30 e 40, trabalhando para o Instituto Português de Oncologia. Numa época em que a fotografia microscópica estava no seu início, elaborou diversas ilustrações muito elogiadas quer nacional, quer internacionalmente, através de uma câmara clara adaptada ao microscópio. Casou, em 1926, com o professor e pintor Jaime Martins Barata (1899-1970) e a sua actividade como pintora decresceu, mantendo sobretudo uma prática artística privada. Cultivou pontualmente a técnica do esmalte, seguindo o modelo de Limoges. Numa grande dádiva de amor foi ajudando, discretamente, o seu marido nas muitas encomendas que satisfez. Apoiando-se numa intensa vida espiritual que, entretanto desenvolveu, devotou a sua vida à família, esquecendo-se de si. Fechou os olhos em 6 de Julho de 1996, em Lisboa. Viu macro em artes e micro em ciência. Viu tudo. Afinal, ver tudo, fica perto de virtude.

In: Sandra Leandro, Màmía Roque Gameiro (1901-1996) Pintura e Ilustração. Amadora: Câmara Municipal da Amadora.

Texto: 

António Sérgio, Damão, Índia, 1883 - Lisboa, 1969

O ensaísta, pensador e pedagogo mais representativo do novecentismo português. 

De seu nome completo António Sérgio de Sousa [neto do visconde António Sérgio de Sousa (1809-1878), que foi vice-almirante, emigrante liberal (1831) e governador-geral da Índia (1878), filho de António Sérgio de Sousa (1842-1906), também vice-almirante], António Sérgio é o terceiro do mesmo nome que, por tradição de família ingressou na Armada. Para isso frequentou o Colégio Militar e foi, depois, estudante na Escola Politécnica como preparação para a Escola Naval, onde obteve uma boa formação matemática (1904). Era segundo-tenente da Marinha de Guerra quando foi proclamada a República (5-10-1910). Monárquico por convicção, decidiu demitir-se por não poder servir o novo regime. 

Já nesta altura o seu espírito estava profundamente vocacionado para o estudo da cultura portuguesa. Impressionado pela obra de Antero de Quental, António Sérgio havia redigido então Notas sobre os Sonetos e as Tendências Gerais da Filosofia (1901-1903), editadas em 1909 e que, convenientemente refundidas e ampliadas, constituíram o trabalho submetido a concurso à disciplina de Filosofa na Faculdade de Letras de Lisboa, em 1912. O lugar acabou por ser preenchido por um professor da mesma Faculdade. 

Empenhado na educação cívica e social do País, sentindo a necessidade de uma reforma da mentalidade e das instituições sociais, António Sérgio aparece ligado desde muito cedo, ainda no tempo da Monarquia, a uma Sociedade de Estudos Pedagógicos (15-1-1910). A saída da Marinha vai permitir-lhe dedicar-se inteiramente à sua obra cultural. 

Vinculado a uma grande casa editora, que dele requer deslocações a Paris, Londres e Rio de Janeiro, Sérgio tem agora tempo para se debruçar sobre a história pátria e tirar dela a lição que sirva os planos de uma reforma social fecunda. Para ele a substituição do regime não era o mais importante, porque via a República cometer os mesmos erros que haviam feito os monárquicos, impreparada, tal como eles, para enfrentar os problemas nacionais. 

O 1º. vol. dos Ensaios, saído em Lisboa em 1920 ataca precisamente o problema da mentalidade nacional, moldada por Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Teófilo Braga e outros, figuras desse «terceiro romantismo» que, pela sua acção descoordenadora e pela criação de mitos, dissolveu o espirito público. A necessidade de uma educação cívica e democrática é por ele abordada nestes primeiros escritos com extraordinária perspicácia e finura. As reformas, que vai preconizar e desenvolve demoradamente, visam a correcção da economia por meio do «cooporativismo»; a criação de uma mentalidade filosófica «pela reflexão problemática a partir da ciência», a revolução historiográfica «pela introdução da problemática sociológica na maneira de escrever a nossa História», a transformação da pedagogia, na escola geral, pela «instrução activa», destinada a suscitar a reflexão e a estimular a atitude crítica. 

O seu pensamento vai desenvolver-se ao longo dos anos com grande clareza e coerência, acompanhando o movimento e a evolução da vida intelectual portuguesa, o que o obriga a um percurso acidentado na formulação das suas ideias. Sérgio é um pensador programático, cujo pensamento se define no debate contra as posições dos seus adversários, não seguindo, por isso mesmo, a linearidade expositiva que se encontra num tratado ou num autor de sistema. 

Após a proclamação da República (5-10-1910), liga-se ao grupo de intelectuais republicanos e nacionalistas, Jaime Cortesão e Raul Proença, que formam a «Renascença Portuguesa» e lançam a revista A Águia (1911). Entra, porém, em polémica com Teixeira de Pascoaes e considerando a doutrina do saudosismo inadequada à solução dos problemas portugueses, afasta-se do grupo, posto deixasse jamais de admirar a obra do grande poeta. Em 1918, quando dirige a revista Pola Grey, o seu pensamento encontra-se próximo do sidonismo. Mas, em 1922, junta-se ao grupo da revista Seara Nova, fundada um ano antes, e, desde então, o seu pensamento afirma-se incessantemento com um carácter democrático e socializante. 

É como «seareiro» que António Sérgio entra para o governo liderado por Álvaro de Castro como ministro da Instrução Pública. A sua permanência no Ministério foi breve (18-12-1923 a 28-2-1924) e as medidas tomadas saldaram-se por um malogro. A opção «reformista» de Sérgio (condizente, aliás, com o seu reformismo social) é, no entender de Rogério Fernandes, a razão fundamental desse fracasso. 

Embora as suas ideias fossem superiores às professadas pelo escol republicano, não ultrapassavam os limites da escola nova de que ele fora o divulgador entre nós. A ditadura instaurada em 28 de Maio de 1926 põe seríssimos problemas ao campo democrático. Sérgio alia-se a Jaime Cortesão, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Sarmento Pimentel, João Soares e outros, para intervir na restauração das instituições democráticas vigentes até à data do golpo militar. Participa na primeira revolução constitucionalista contra o regime, liderada pelo general Sousa Dias e outros, que estalou em 3 de Fevereiro de 1927. O movimento falhou. Sousa Dias e os promotores da revolução foram deportados para África, e Sérgio, juntamente com outros intelectuais e políticos, teve de exilar-se em França. 

Viveu em Paris uma vida dura, comendo o pão amargo do exílio. Dividia o tempo entre trabalhos para uma empresa cinematográfica, traduções, colaboração para a imprensa e lições nas poucas horas que lhe sobravam, sem descurar a sua actividade como político oposicionista no exterior. 

Em 1929 a Editorial Labor de Barcelona, publica a sua História de Portugal, de que em 1958 saiu a 2ª. ed. com alterações não perfilhadas pelo autor. Dela sai uma versão integral em 1971, intitulada Breve Interpretação da História de Portugal. Trabalho brilhante de síntese, aí traça A. Sérgio os grandes momentos de crise, dilucidando as suas razões e avaliando os seus efeitos na vida do povo português. Em Março de 1933 encontra-se em Espanha e em Abril do mesmo ano regressa a Portugal.

António Sérgio vai prosseguir intensamente o seu apostolado cívico e moral, já que nele a eticidade é a raiz de toda a actuação política. A sua oposição ao regime do Estado Novo, instaurado por Salazar manter-se-á vigorosamente ao longo dos anos, tendo sido um dos apoiantes da candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República em 1958. 

A sua figura e o seu ideário dominam durante quatro décadas a cena intelectual portuguesa. Em 1941 publica o primeiro tomo da sua História de Portugal, Introdução Geográfica (Lisboa), obra que a Censura obrigou a retirar do mercado e só voltou a ser reeditada em 1973 (Introdução Geográfico-Sociológica à História de Portugal, Lisboa, Sá da Costa). A doutrinação de Sérgio desenvolve-se, seguindo vectores que procuram sondar as causas da nossa decadência histórica, continuando, de certo modo, a investigação iniciada por Antero. Esses vectores, presentes no pensamento de Sérgio desde 1913, apontam como razões de declínio: o nosso isolamento da Europa; o ascendente de uma aristocracia militar, impeditivo da criação de uma burguesia; a educação guerreira que se sobrepõe ao trabalho criador; a corrupção inerente ao sistema das conquistas; a expansão ultramarina como prolongamento da caça ao mouro, iniciada na Reconquista. Para ele, tal como para Oliveira Martins, o século XV foi o nosso grande período histórico, pois então Portugal se encontrava ligado à vida intelectual de toda a Europa. A expansão marítima, efectuada nos moldes apontados, e a acção posterior da Inquisição estão na origem do nosso isolamento, que só recebeu o seu primeiro e verdadeiro assalto no século XVIII, devido à intervenção dos estrangeirados. 

Pensador influenciado pelos ideais do iluminismo, Sérgio acredita na criação de um escol intelectual, capaz de educar os cidadãos e de lhes incutir a consciência cívica que promova a grande reforma das mentalidades, fomentando uma opinião pública. É esta sua mesma crença no elitismo que leva Sérgio a recorrer a oficiais superiores no activo, desencantados com o regime, para a eventual mudança democrática que ele considerava necessária para o País. 

Pensador de raiz neokantiana, idealista crítico, para ele a razão triunfaria acima dos conflitos, uma vez criadas as condições que coadjuvassem a emancipação cooperativista. Em nome do racionalismo critica o parlamentarismo, não vendo que a crítica institucional só reforçava, no contexto em que a fazia, o governo de teor autocrático.

Estimulando o debate de ideias, Sérgio envolveu-se em grandes polémicas. Primeiro contra o saudosismo (1912-1914), depois contra a interpretação cruzadista da tomada de Ceuta (1920) e mais tarde contra o culto sentimentalista de D. Sebastião (1924-1926). O intuicionismo de Bergson e Leonardo Coimbra (1934), o positivismo lógico (1937), os marxistas (1937), todos foram alvo da sua doutrinação, que jamais se obrigou em qualquer destes ou de outros debates a alterar a posição inicial. 

Os Ensaios (Lisboa, 8 vols., 1920-1958, reeditados em 1971-1974), constituem uma obra ímpar na cultura portuguesa, inserindo-se na melhor tradição de Montaigne. Sérgio trata aí também de questões literárias, quais são as que dizem respeito a António Nobre e Eça de Queirós. O plano em que se situa nestas análises é o da preocupação ético-ideológica, que se quadra com o seu humanismo de intervenção cívica e as suas intenções de pedagogia politica. 

Importantes ainda na sua vastíssima bibliografia, dispersa por revistas, jornais e outras publicações periódicas, são os Diálogos de Doutrina Democrática reunidos em Democracia, Lisboa, 1974 e redigidos em 1933 onde Sérgio contesta o ideário e o pensamento de Salazar, sob a ficção das personagens que travam o debate. Só o primeiro diálogo saiu na Seara Nova. E o livro que com aquele título tentava publicar foi apreendido pela Censura quando estava em vias de ser impresso. 

Em 29 de Fevereiro de 1960 Sérgio perdeu a esposa, D. Luísa Estefânia, senhora notável, que colaborara com o marido na sua obra de divulgação pedagógica e na redacção de histórias infantis. Ela fora a sua declicada companheira de exílio, datando o casamento de 10 de Junho de 1910. O escritor sofria já, em 1960, de uma longa depressão, que o manteve até à morte afastado da vida política e de qualquer actividade intelectual. 
 
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. III, Lisboa, 1994

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