Alexandre O’ Neill, Nora Mitrani, Simon Watson Taylor, «Lettre Collective», cópia em “papel químico” de dactiloescrito original, Lisboa, 10 de março de um ano qualquer. (1950)

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[Este texto] (…) deverá encontrar o seu lugar entre as peças realizadas durante o período das actividades surrealistas de Alexandre O’Neill, isto é, entre 1947 e 1951. (…) De facto, podemos datá-lo, com segurança, de 1950, ano em que os seus autores, Simon Watson Taylor, Nora Mitrani e Alexandre O’Neill se encontraram, em Lisboa, aquando de algumas das actividades culturais e políticas organizadas pelo Grupo Surrealista de Lisboa durante esse mesmo ano. Pelas suas características textuais, Lettre Collective é uma peça distinta de qualquer das constantes no conjunto dos textos colectivos de intervenção. Na realidade, quer pelo grau de poeticidade que a atravessa e contribui, de maneira inequívoca, para a sua individuação, quer pela maneira como nela surrealismo e política se encontram, tanto através de referências culturais como «la mariée mise à nue par elle-même» - alusão à pintura sobre vidro «La mariée mise à nue, par ses célibataires, même» executada, entre 1915 e 1923, por Marcel Duchamp e considerada uma das obras mais significativas do autor, pelas sugestões, simultaneamente, de semelhança e dissemelhança entre os universos eróticos individualizados e o todo específico que qualquer máquina representa, como também através dos ataques frontais que uma moral passadista, retrógrada e autoritariamente imposta, alvo de acerada denúncia em algumas das suas partes constituintes e na sua globalidade. Os vários subentendidos, ácida e ironicamente tecidos pelos seus autores que, «de Lisbonne» deixam saber o que na cidade e no país acontece, ou não, Os vários subentendidos, ácida e ironicamente tecidos pelos seus autores que, «de Lisbonne» deixam saber o que na cidade e no país acontece, ou não, são, também, a expressão do desejo de revelar a opressão vivida no país e que Nora Mitrani levará para França, uma vez regressada a Paris. Então, a escritora denunciará, em artigos publicados no Jornal Le Franc-Tireur, com o pseudónimo Daniel Gautier, na escrita límpida e objectiva, que era a sua, a miséria e a agonia da vida portuguesa naquela época, por ela presenciada durante uma viagem pelo país que realizou guiada por Alexandre O’Neill.”

in: Laurinda Bom, Alexandre O’ Neill, Prosas de um poeta, Proposta de edição crítica, Lisboa, 2006

 

Um adeus português

Nos teus olhos altamente perigosos

vigora ainda o mais rigoroso amor

a luz de ombros puros e a sombra

de uma angústia já purificada

 

Não tu não podias ficar presa comigo

à roda em que apodreço

apodrecemos

a esta pata ensanguentada que vacila

quase medita

e avança mugindo pelo túnel

de uma velha dor

 

Não podias ficar nesta cadeira

onde passo o dia burocrático

o dia-a-dia da miséria

que sobe aos olhos vem às mãos

aos sorrisos

ao amor mal soletrado

à estupidez ao desespero sem boca

ao medo perfilado

à alegria sonâmbula à vírgula maníaca

do modo funcionário de viver

 

Não podias ficar nesta cama comigo

em trânsito mortal até ao dia sórdido

canino

policial

até ao dia que não vem da promessa

puríssima da madrugada

mas da miséria de uma noite gerada

por um dia igual

 

Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta pequena dor à portuguesa

tão mansa quase vegetal

 

Não tu não mereces esta cidade não mereces

esta roda de náusea em que giramos

até à idiotia

esta pequena morte

e o seu minucioso e porco ritual

esta nossa razão absurda de ser

 

Não tu és da cidade aventureira

da cidade onde o amor encontra as suas ruas

e o cemitério ardente

da sua morte

tu és da cidade onde vives por um fio

de puro acaso

onde morres ou vives não de asfixia

mas às mãos de uma aventura de um comércio puro

sem a moeda falsa do bem e do mal 

*

Nesta curva tão terna e lancinante

que vai ser que já é o teu desaparecimento

digo-te adeus

e como um adolescente

tropeço de ternura

por ti.

       

Alexandre O’Neill, No Reino da Dinamarca, 1958

 

A história de um poema

"Quando escrevi «Um Adeus Português», há quase quarenta anos, estava a sofrer pressões inacreditáveis, por parte de alguém da minha família, para não «ir atrás da francesa». A francesa, a minha querida e já falecida amiga Nora Mitrani, queria que eu fosse ter com ela a Paris, onde vivia. «Vens, ficas cá e depois se vê», era o que o seu optimismo me dizia por carta. Mas as coisas não se passaram assim. A pressão (ou, melhor, a perseguição) chegou ao ponto de ter sido metida uma cunha à polícia política para que o passaporte me fosse denegado, o que aconteceu, não sem que eu, primeiro, tivesse sido convocado para a própria sede dessa polícia e interrogado pelo subinspector Seixas. Seixas usou comigo de uma linguagem descomedida. Perguntou-me que ia eu fazer a Paris, Respondi: — Turismo. Quis saber se eu conhecia a senhora N. M. Eu disse que sim. Então Seixas retorquiu: — Se calhar V. quer ir porque essa gaja lhe meteu alguma coisa na cachola. Com a serenidade que me foi possível, fiz-lhe saber que se enganava, que N. M. não era uma gaja e que eu não tinha cachola. Pareceu surpreendido. Depois, irritado, mandou-me sair. E assim estive anos sem conseguir passaporte.

Claro que o poema não se gerou apenas desta situação, mas ela contribuiu poderosamente, com outros factores circunstanciais bem conhecidos, para que o poema aparecesse. Era uma época em que tudo cheirava e sabia a ranço em que o amor era vigiado e mal tolerado, em que um jovem não era senhor dos seus passos (errados ou certos, não interessa).

Semanas depois, «nascia» o poema e, com ele publicado, uma relativa notoriedade. É que o poema, ingénuo como é, tem realmente a força do nojo e do desespero combinados com um derrame/contenção sentimental que não mais igualei. Então, durante algum tempo, fiquei conhecido como o poeta de «Um Adeus Português».

A minha amiga, que não voltei a ver (quando a fui procurar em Paris já tinha morrido), ainda tomou conhecimento deste poema. Escreveu-me: «Li o teu Adeus. Fiquei atrozmente comovida.» Claro que um poema não é feito de nojos, desesperos e derrames sentimentais, mas, no caso, a felicidade de expressão foi vivamente alimentada por uma raiva e um amor desmesurados, quer dizer, adolescentes. E o poema foi ficando e passando para as antologias. Explico tudo isto porque outro dia me chegou às mãos um número da «Europe» dedicado à literatura de Portugal. E lá aparece, numa tradução bastante pobre, o tal «Adeus...». Não é que, na nota proemial, em que me definem como sarcástico, desesperado e terno, dizem que o poema foi inspirado por Nora Mitrani! Eu acho que por enquanto, isso é comigo. Também o João Botelho (o do excelente filme «Conversa Acabada») me telefonou a pedir-me autorização para usar o título do poema para título de um novo filme seu. Dei-lha logo. E nem sequer lhe perguntei se o que ele vai fazer tem a ver com o poema ou não. Isso é lá com ele. Como, insisto, é só comigo que Nora Mitrani tenha sido ou não a inspiradora de «Um Adeus Português». Pelo menos antes da presente explicação. Tempos." Alexandre O’Neill

Nora Mitrani (1921, Sofia, Bulgária, Paris,1961), escritora surrealista e socióloga. Amiga incondicional de André Breton (assinará praticamente todas as declarações de carácter colectivo a partir de «Rupture Inaugurale», em 1947, incluindo as exclusões de Matta e de Brauner, mas não a de Max Ernst). Veio a Lisboa, em 1950, para proferir, no âmbito das actividades do Grupo Surrealista de Lisboa, uma Conferência - La Raison ardente - cuja tradução foi feita por Alexandre O'Neill e publicada no último número de Cadernos Surrealistas (Lisboa, 1948 - 1950.).

Nascida em 1921, em Sofia, na Bulgária, instala-se com a família em Paris. Durante a ocupação alemã a mãe, assim como a maior parte dos seus familiares, é deportada para Auschwitz. Para prosseguir os seus estudos, toma uma falsa identidade concluindo a licenciatura em Filosofia, na Sorbonne e sendo admitida, no início dos anos 50, no CNRS - Centro de Estudos Sociológicos, dirigido por Georges Gurvitch. Publica em jornais e revistas, Néon, Almanach surréaliste du demi siècle, l'Age du Cinéma, Bief, Médium, Le Surréalisme-Même onde, no n.º 2, Primavera de 1957, fará, no texto «Poésie, Liberté d'être» uma das primeiras apresentações, em França, da obra de Fernando Pessoa, traduzindo a Carta do poeta a Casais Monteiro, o poema de Poemas Inconjuntos 1913-1915, de Alberto Caeiro, «A Espantosa Realidade das Cousas» e o poema «Gomes Leal», em PESSOA, Fernando, Obra Poética, ed. cit., pp. 168 e 85, respectivamente. De notar que estas traduções não são referenciadas na Bibliografia "Pessoa en Français", publicada na Revista Magazine Littéraire, n.º 291, Paris, Setembro 1991, pp. 62-64 apresentada como exaustiva.

A maior riqueza dos textos de Nora Mitrani reside na clareza dos propósitos, na defesa da imaginação e das forças inconscientes, contra o racionalismo e o realismo na Arte, de par com uma lucidez e percepção exactas da injustiça social, das situações de repressão e miséria notórias nos artigos que publica, depois da viagem a Portugal, no Jornal Franc-Tireur (n.º 4-7 de Junho de 1950), com o título «Portugal 50», assinados com o pseudónimo Daniel Gautier. Nestes artigos exprime toda a sua indignação face à exploração de que é alvo a população portuguesa, sob a ditadura de Salazar. A sua obra foi reunida por Dominique Rabourdin em Rose au coeur violet, retomando o título dos anagramas que criou com Hans Bellmer. A obra é prefaciada por Julien Gracq e foi editada em 1982, em Paris, pela Editora Terrain Vague, Losfeld.

Acerca de Alexandre O'Neill e Nora Mitrani, cf. Manuel João Gomes, «O'Neill, poeta». Em 1955, elle participe à un ouvrage collectif sur Soren Kierkegaard édité en Égypte par l'écrivain Georges Henein. Cette même année, André Breton écrit dans une dédicace à son attention : « L'idée que je me fais de la noblesse est souvent passée par les inflexions de son langage et de sa pensée.»

Alexandre O’Neill, poeta português, Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões nasceu a 19 de dezembro de 1924, em Lisboa, e morreu a 21 de agosto de 1986, na mesma cidade. Para além de se ter dedicado à poesia, Alexandre O'Neill exerceu a atividade profissional de técnico publicitário. Fundador do Grupo Surrealista de Lisboa, com Mário Cesariny, António Pedro, José-Augusto França, diretamente influenciado pelo surrealismo bretoniano, desvinculou-se do grupo a partir de Tempo de Fantasmas (1951), embora a passagem pelo surrealismo marque indelevelmente a sua postura estética. A sua distanciação em relação a este movimento não obstou a que um estilo sarcástico e irónico muito pessoal se impregnasse de algumas características do Surrealismo, abordando noutros passos o Concretismo, preocupando-se não em fazer "bonito", mas sim "bom e expressivo". Para Clara Rocha, a poesia de Alexandre O'Neill coincide com o programa surrealista a dois níveis: "a libertação total do homem e a libertação total da arte. O que implica: primeiro, uma poesia de 'intervenção', exortando os homens a libertarem-se dos constrangimentos de toda a ordem que os tolhem e oprimem (familiares, sociais, morais, quotidianos, psicológico, políticos, etc.); segundo, a libertação da palavra de todas as formas de censura (estética, moral, lógica, do bom senso, etc.)" (cf. ROCHA, Clara - prefácio a Poesias Completas, 1982, p. 12). Para Fernando J. B. Martinho (retomando um artigo de Quadernici Portoghesi), a diferença de O'Neill relativamente à poética surrealista situa-se na "preferência, relativamente à oposição 'falar/imaginar', pelo primeiro polo", numa consequente atenção dispensada, nos livros posteriores a Tempo de Fantasmas, como No Reino da Dinamarca ou Abandono Vigiado, "à sociedade portuguesa de que vai traçar como que a radiografia, surpreendendo-a na sua mediocridade, nos seus ridículos, nos seus pequenos vícios provincianos" (MARTINHO, Fernando J. B., op. cit., 1996, pp. 39-40). Nessa medida, e ainda segundo o mesmo crítico, se "o surrealismo ortodoxo põe a sua crença na existência de um 'ponto do espírito em que [...] o real e o imaginário' deixariam 'de ser percebidos contraditoriamente', em Alexandre O' Neill toda a busca parece centrar-se na 'vida' e no 'real'" (id. ibi, p. 40). Recebeu, pelas suas Poesias Completas, o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1983).

Simon Watson Taylor (1923–2005) was an English actor and translator, often associated with the Surrealist movement. He was born in Wallingford, Oxfordshire on 15 May 1923 and died in London on 4 November 2005.

He was secretary for the British Surrealist Group and edited the English language surrealist review Free Union but later became a key player in the "science" of Pataphysics. He was educated in England, France, Switzerland, Germany and Austria. Taylor lived in Paris in 1946-7, working for the English section of Radio-diffusion Francaise.

Taylor's extensive work as a translator of modern and avant-garde French literature and books about art included Surrealism and Painting by André Breton and plays by Boris Vian including The Empire Builders, The Generals’ Tea Party and The Knackers’ ABC. Others were The Cenci by Antonin Artaud, Paris Peasant by Louis Aragon and numerous works by Alfred Jarry. His collection of Jarry's The Ubu Plays (Methuen, London, 1968) included translations by himself and Cyril Connolly and remains in print.

In 1968 Taylor edited French Writing Today, published in the United Kingdom by Penguin and in 1969 by Grove Press in the United States.

Taylor was an editorial advisor and frequent contributor to the London based magazine Art and Artists and was the guest co-editor (with Roger Shattuck) of a special issue (May-June 1960) of the American literary magazine Evergreen Review; titled What is Pataphysics?

With Shattuck he also edited The Selected Works of Alfred Jarry (Methuen & Co, London, 1965).


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