Poesia Experimental

Poesia Experimental

A poesia experimental apresenta-se sob várias formas: num domínio linguístico ou afim (utilização de estruturas abertas; recurso à leitura ideogramática ou anagramática, à decomposição ou montagem de palavras; valorização duma apreensão visual ou auditiva da palavra que tende a apresentar-se como objecto através duma realização gráfica ou sonora) e extralinguístico (grafismo, geometrismo, estruturação óptica ou sonora relacionada com formas de comunicação ligadas à música, às artes plásticas, à publicidade, à intervenção ou acções públicas). Em Portugal, um dos aspectos mais relevantes da poesia experimental relaciona-se com o aparecimento da poesia concreta, sobretudo a partir de experiências que, pelos anos 50, foram iniciadas no Brasil (em 1956, a revista Graal, 2, e, em 1959, a revista Tempo Presente, 1, publicam textos dos brasileiros Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos). Podemos enraizar esse aparecimento num conjunto de intenções artísticas de vanguarda que remontam ao nosso futurismo (nomeadamente, com os poemas “Manucure” e “Apoteose” de Mário de Sá-Carneiro), na tentativa de realização duma poesia «dimensionista», em que António Pedro procura uma conjugação do desenho com a expressão poética, nas experiências gráficas ou de decomposição vocabular intentadas por Mário Cesariny de Vasconcelos e Alexandre O’Neill, etc. A «primeira equipa» foi constituída por António Aragão, António Ramos Rosa, António Barahona da Fonseca, E. M. de Melo e Castro, Herberto Helder e Salette Tavares; outros se lhes juntaram, pelo interesse que revelaram por uma realização experimental da poesia: Liberto Cruz (Álvaro Neto), Ana Hatherly, José Alberto Marques, Emanuel Félix e, ocasionalmente, Jorge de Sena. O primeiro livro publicado dentro duma concepção sistematicamente concretista foi Ideogramas (1962), de E. M. de Melo e Castro, que se revelará como um dos principais animadores da poesia experimental (cujo alcance teórico considera nos seguintes livros de natureza ensaística: A Proposição 2.01, 1965, O Próprio Poético, 1973, Dialéctica das Vanguardas, 1976, In–Novar, 1977). Para além de diversas obras de carácter individual, há a considerar um intencional trabalho de equipa, traduzido pela publicação de obras colectivas (Poesia Experimental, 1 e 2, 1964 e 1966; Hidra, 2, 1969; uma Antologia da Poesia Concreta em Portugal, 1973, etc.) e pela realização de exposições, audições (com a colaboração de músicos de vanguarda, entre eles Jorge Peixinho) ou “happenings”. 
Poesia 61: Reunião de cinco plaquetes, de Casimiro de Brito (Canto Adolescente), Fiama Hasse Pais Brandão (Morfismos), Gastão Cruz (A Morte Percutiva), Luíza Neto Jorge (Quarta Dimensão) e Maria Teresa Horta (Tatuagem), publicado em Faro, em 1961, surge num contexto em que é de realçar a publicação, na capital algarvia, dos cinco fascículos dos Cadernos do Meio-Dia (1958/60), da colecção A Palavra (coord. por Casimiro de Brito e contando também entre os seus colaboradores Fiama Brandão e L. N. Jorge), e o papel catalisador desempenhado por António Ramos Rosa, já então gozando de assinalável prestígio, quer como poeta, quer como crítico, depois das experiências de Árvore (1951-1953) e de Cassiopeia (número único em 1955), junto dos seus companheiros mais jovens. Fazendo uma verificação do cansaço e esgotamento a que haviam conduzido alguns dos caminhos dos anos 50, Poesia 61 procura responder, por diversos modos, a exigências de modernidade e de experimentação vanguardista.  
«Árvore»: Revista de poesia (1951-1953) dirigida por António Ramos Rosa, António Luís Moita, Egito Gonçalves, José Terra, Raul de Carvalho e Luís Amaro, procurou, em quatro números, conciliar neo-realismo e surrealismo, devedora das líricas francesa, espanhola e inglesa dos anos 30, da Resistência e do pós-guerra. É comum citar o seu ponto de partida, nas palavras de Ramos Rosa: «A primeira coisa por que devemos lutar é pela confiança nos destinos da poesia, que nós confundimos com o próprio destino do homem.»

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