Livraria Trindade

Livraria Trindade

 

É na rua do Alecrim, em Lisboa, que habitam páginas que o tempo não desfaz, seja em livros, mapas ou gravuras. A livraria e antiquário J. Trindade, um negócio de família que nasceu em 1960, é hoje dirigido pela terceira geração de um clã que trata os livros com a afeição que eles merecem. 

Ana Clara | segunda-feira, 10 de Março de 2014

A rua do Alecrim é das mais movimentadas do centro de Lisboa. Na artéria que liga a Praça Camões (no Chiado) ao Cais do Sodré, há um cenário que se repete diariamente: turistas que sobem e descem a calçada portuguesa à descoberta da capital; um trânsito sempre sôfrego nesta rua de feição íngreme.


É nos números 32-34 que encontramos um dos alfarrabistas mais antigos da cidade. «Antiguidades, livros e mapas - compra e venda». É este o slogan da livraria e antiquário J. Trindade. Um anúncio que se mostra bem visível na rua, despertando a atenção de quem por aqui passa.

 
Uma casa plena de gravuras, documentos históricos, exemplares únicos e livros raros. O visitante, cliente ou não, é levado a descobrir o prazer da leitura, mergulhando em páginas de um tempo em que o documento escrito não era tratado como um produto massificado ou vedeta de escaparate. Na livraria e antiquário J. Trindade contactamos com estórias, personagens e lugares, hoje difíceis de encontrar.

É António Trindade quem nos recebe nesta visita. «A loja ainda é do meu pai que está reformado», começa por explicar este professor que abandonou as salas onde leccionava filosofia para se dedicar a tempo inteiro à livraria, um negócio inaugurado por João Campos Trindade, fundador desta casa.

«Estou a renovar a loja, quer no que respeita aos livros, quer às antiguidades. Os meus avós eram antiquários, os irmãos do meu pai também», afirma António, que prolonga assim o negócio de família que começou em Alcobaça nos anos 40 do século XX com os avós.

«Os meus avós foram dos primeiros antiquários do país. Eu já sou a terceira geração a pegar no negócio e acho isto fabuloso, aprende-se muito neste trabalho. Para quem gosta de livros como eu, isto e fantástico», revela, orgulhoso, acrescentando que a sua família «deve ser das poucas comerciantes em Portugal que se mantêm no activo desde os anos 40 do século XX».

A loja contempla dois espaços distintos, um vocacionado aos livros, outro às antiguidades. Uma mesa central, antiga, construída em madeira robusta, alberga vários exemplares «ainda por arrumar». Numa ponta repousam dois tomos: «Os Pequenos Mundos» e «A volta ao Mundo», de Ferreira de Castro, no lado oposto «A História do Exército Português».

Nos muitos armários «espreitam» obras raras, algumas bastante antigas, tocando diversas áreas: Antropologia, História, África, Brasil, Lisboa, Literatura, Poesia, Política e Sociologia. Mas há também espaço para edições únicas e esgotadas noutras editoras, seja de Arquitectura, Arte, Cinema ou até mesmo Culinária.
 

«Acho que este é um ramo que tem potencial. O livro está a morrer um pouco. Cada vez há menos editoras e se alguém quiser fazer um trabalho científico ou estudar outro tipo de coisas é difícil ter acesso às obras», lamenta António Trindade.

O proprietário admite que «este tipo de casas é das poucas alternativas que existem. Aqui reciclamos e tentamos seleccionar os livros relevantes, também aconselhar investigadores que nos procuram. Aprende-se muito, é um mundo onde moram palavras raras e difíceis de encontrar. A internet, por outro lado não é, muitas vezes, segura, na procura da informação, nem tem o que algumas pessoas procuram. E nas livrarias comerciais já não é possível encontrar muita coisa. No fundo, aqui moram as palavras e as obras raras», sublinha António.
 
 
Há uma crise «imensa» que atinge a actividade alfarrabista, admite. Contudo, realça que «desistir é pior» e «resistem aqueles que acreditam no negócio» mas também os que «têm a capacidade de se adaptar à nova realidade».

No que concerne ao cliente, de acordo com António Trindade, «há o coleccionador, para quem os livros têm de estar impecáveis. Depois há o investigador e, ao contrário do que se possa pensar, tenho muitos clientes novos, estudantes universitários, que procuram, por exemplo, livros sobre arte».

A maior parte das obras expostas na livraria são adquiridas a particulares e a bibliotecas. Na livraria há preços para todas as carteiras, desde um euro a obras que valem centenas de euros, pela sua «preciosidade».

Numa outra sala, António explora ainda o negócio das antiguidades, expondo peças decorativas, pratas, candeeiros, relógios antigos.
Scroll to Top